"Há uma maior aposta na qualidade do turista que vem para Portugal"

Ficar num hotel em Portugal torna-se mais caro de ano para ano. As empresas abdicam da “quantidade”, para privilegiar a “qualidade” do turista diz António Marto, fundador da Bolsa de Empregabilidade.
António Marto, fundador da Bolsa de Empregabilidade
António Marto, fundador da Bolsa de EmpregabilidadeFoto: Gerardo Santos
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Uma semana de férias com meia pensão num hotel do Algarve fica, por norma, mais cara do que no sul de Espanha. O fenómeno leva muitos portugueses a atravessarem a fronteira para fazerem férias de verão (e não só) e está ligado a uma "aposta na qualidade do turista", em detrimento da quantidade, numa altura em que continuam a faltar trabalhadores no setor.

Quem o diz é António Marto, fundador da Bolsa de Empregabilidade, plataforma especializada no mercado de trabalho do turismo, hotelaria e restauração. O responsável esteve à conversa com o Dinheiro Vivo (DV). Aponta maior capacidade de resposta à procura de turistas em 2026 do que no ano passado, ainda que a dificuldade em reter talento não desapareça da agenda. Ao mesmo tempo, a indústria caminha para procurar turistas de outros continentes, para estadias mais duradouras e que tenham maior poder de compra. A saída da Ryanair dos aeroportos dos Açores pode ser um sinal disto mesmo, diz.

"Aquilo que há é uma aposta não quantidade, mas sim na qualidade", diz, antes de explicar em que é que isto se traduz, na prática. "Na qualidade do mercado de onde vem o turista e no tempo que o turista fica em Portugal", sublinha.

Neste contexto, há uma procura maior por turistas de mercados específicos, extra-europeus. São exemplos os EUA, Canadá e Coreia do Sul, cujos turistas vêm de longe e acabam por ficar mais tempo de férias, em Portugal.

É que, de acordo com António Marto, a qualidade do turista expressa-se em "nacionalidade e disponibilidade financeira" do mesmo. Significa isto que a grande aposta está em turistas à procura de um serviço de luxo (ou quase) e dispostos a pagar preços mais altos do que o turista médio do mercado português ou europeu.

Ora, se o turista está disponível para gastar mais dinheiro e ficar mais tempo, "também será mais exigente", o que significa que "vai exigir mais da empresa", pelo que reter talento e, eventualmente, pagar salários melhores tornam-se fatores mais relevantes. "É uma bola de neve", salienta António Marto.

Na perspetiva do responsável, os dados que serão divulgados nos próximos meses pelo Turismo de Portugal (contemplarão a época alta) vão confirmar precisamente esta ideia. Ora, um dos acontecimentos de maior impacto no setor do turismo em 2026 corrobora precisamente esta ideia, sugere.

O fundador da Bolsa de Empregabilidade diz que a saída da Ryanair do arquipélago dos Açores "pode inserir-se na estratégia de mudança de drivers, da quantidade para a qualidade", que assim vai além de Portugal Continental. É que a Ryanair tem uma oferta low cost, ao contrário do que acontece com a TAP e a SATA (únicas companhias que continuam a operar voos comerciais entre Portugal Continental e os Açores), que praticam agora preços muito acima daqueles que a Ryanair colocava no mercado.

Falta talento e capacidade de o reter

Em 2026, o mercado de trabalho do turismo apresenta diferenças face aos anos anteriores. A indústria "deixou de ser sazonal" em matéria de contratação, o que significa que as empresas já não vão buscar trabalhadores quase exclusivamente para a época alta. Os turistas chegam durante todo o ano e, por isso, ganham importância os contratos de longa duração.

"É para isto que Portugal está a trabalhar e as empresas estão a preparar-se para que aconteça", garante António Marto. Para que tal seja possível, há ainda a barreira de encontrar talento e formá-lo, sendo que o papel da imigração pode ser decisivo, salienta.

A falta de capacidade para atrair talento e, sobretudo, de o reter nas empresas, continua a constituir uma barreira ao crescimento do setor (a par de outros setores da economia), desde os hotéis até às empresas que organizam atividades para os turistas. No que diz respeito a trabalhadores, falta "quantidade e qualidade", sendo esta uma radiografia que "no verão se faz notar ainda mais", aponta.

Em 2025, a AHRESP estimava que faltavam 50 mil trabalhadores no setor. António Marto vê maior capacidade de resposta em 2026 do que no ano passado, mas não esquece que ainda há vagas por preencher. Em todo o caso, sublinha que o fluxo de imigração tem sido uma ajuda decisiva para as empresas.

Imigração sustenta o setor

Trabalhadores imigrantes estão a "salvaguardar muitos dos serviços base da hotelaria e restauração", um pouco por todo o país, diz o fundador da Bolsa de Empregabilidade. Ainda assim, "precisamos de mais formação" e maior capacidade de retenção de talento, reitera. Sobre as recentes alterações às leis relacionadas com a imigração, o próprio mostra-se otimista.

"Acreditamos que não vão trazer dificuldades para o setor", ao mesmo tempo que são já "muitas" as empresas que desenvolvem "planos de formação para reconverter pessoas que são de outros setores para a hotelaria", incluindo imigrantes.

Falta agora conhecer a totalidade dos dados do verão de 2026, para que seja possível traçar um ponto de situação mais concreto sobre o setor do turismo e respetivas empresas.

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