Leica planeia transferir serviços da Alemanha para a divisão em Portugal
O Grupo Leica planeia transferir serviços da sua divisão na Alemanha para Portugal, onde já emprega 700 pessoas numa unidade de produção e centro de desenvolvimento em Vila Nova de Famalicão. A garantia é de Andreas Kaufmann, chairman da Leica Camera AG e acionista maioritário do grupo alemão, em conversa com o Dinheiro Vivo, em Lisboa.
“Nós vamos crescer em Portugal nos próximos anos. E isso significa mais pessoas empregadas”, diz Andreas Kaufmann, um bilionário austríaco que tomou conta da Leica em 2004. Atualmente, a família Kaufmann detém 56% da icónica marca do ponto vermelho, famosa pelas máquinas fotográficas, mas também pelas lentes e óticas de precisão, como instrumentos de saúde, microscópios, binóculos e miras telescópicas.
Cerca de 90% da pré-produção de tudo o que a Leica faz passa por Portugal. “Temos toda a pré-produção em Portugal – 90% da pré-produção. E nas óticas desportivas é quase 100% em Portugal. Vamos fazer mais em Portugal. E verá isso nos próximos anos”, salienta o gestor.
“Podemos transferir mais coisas da Alemanha para Portugal”, adiantou Kaufmann, com algum cuidado por se tratar de “projetos em curso”. Mas que tipo de serviços viriam? Kaufmann faz um longo caminho até chegar ao ponto. “Olhe para Portugal. Os custos de trabalho, em Portugal, são 38% dos custos de mão de obra na Alemanha. Se você tem uma operação internacional, o que faz? Provavelmente, faz mais trabalho em Portugal. Quando, às vezes, me chegavam esses tipo da McKinsey ou qualquer outra [consultora] e diziam: ‘Ah, vocês têm de ir para a Ásia!” Nós dizíamos: “Mas estamos em Portugal, que é Europa”
Kaufmann admite que a marca Leica não tem um acréscimo expressivo de reconhecimento de marca com o selo “Made in Europe” que Portugal que lhe dá, mas o trabalho que é feito em Famalicão há 50 anos dá algo mais ao grupo: estabilidade.
“O ponto-chave aqui é que temos uma grande base de trabalhadores. (...) E uma coisa muito boa, em particular na parte norte de Portugal: nós até temos trabalhadores de terceira geração. E isso cria uma força de trabalho muito estável, muito dedicada”, afirma.
Por isso faz sentido, sobretudo financeiro, mudar serviços para cá. “Por exemplo, nas óticas desportivas, o atendimento ao cliente de todo o mundo está agora em Portugal, porque a produção está cá, de qualquer maneira. Agora está completamente em Portugal, então vamos crescer isso. Na produção não vamos mudar nada, mas nos serviços e outras áreas, sim”, conclui.
Ao longo de toda a entrevista, Kaufmann manuseou uma máquina Leica, dedilhando os botões e aconchegando a máquina à palma da mão. “O telemóvel é uma ótima ferramenta para snapshots, mas não é uma grande ferramenta. E uma das razões é o form factor”, atira.
A Leica tem parcerias com marcas de telemóveis chinesas desde 2015, primeiro com a Huawei e atualmente com a Xiaomi.
O novo produto desenvolvido em conjunto entre a Xiaomi e a Leica passa por inovações no módulo de lentes do telemóvel (todas da marca alemã) e no tipo de interface com o utilizador. O telemóvel, diz, “é um bom ponto de partida, porque geralmente as pessoas, quando querem fazer mais na área de fotografia, de repente percebem que talvez não seja má ideia ter uma câmara. E toda a gente hoje é fotógrafo”. Talvez um dia passem a querer ter uma máquina fotográfica.
“Temos um ditado muito simples na Leica. Se apenas 1,5% ou mesmo 1% dos fotógrafos de telemóvel começarem a tirar fotos com o método tradicional… Bem, nesse caso boa sorte com a produção”, comenta Kaufmann entre risos.
Por isso, a estratégia da Leica vai continuar a passar por crescimento orgânico. “A coisa é bastante simples. Nós ainda somos um pequeno peixe num enorme lago. Os maiores peixes são hoje os produtores de smartphones. Mas na indústria das máquinas fotográficas, os maiores ainda são os japoneses. Nós somos os últimos na Europa. Então, o que vamos fazer é crescer organicamente. Basicamente, somos uma empresa de distribuição seletiva. Isso significa que vamos fazer a nossa própria distribuição e abrir mais lojas próprias”, revela.
Quando a família Kaufmann entrou na Leica, em 2004, a marca tinha mais de 6000 lojas onde se podia comprar as máquinas. Hoje, são cerca de 300. “Isso significa que temos 120 a 130 lojas e boutiques e alguns revendedores que são os nossos parceiros”.
Ou seja, o principal objetivo da Leica actualmente será o de reduzir as geografias em que não tem presença ou tem uma presença residual, os chamados pontos brancos.
“Em cinco anos queremos ter mais lojas em todo o mundo. Atualmente, cerca de 50% das vendas são impulsionadas pela nossa própria distribuição, retalho e comércio eletrónico. O resto são associados ou parceiros. No futuro poderá ser 60/40 em percentagem de receita. Em cinco anos poderíamos chegar aos 70/30”, conclui.
Peça corrigida às 18:55 de quarta-feira, 17 de junho, para referir que a Leica emprega 700 pessoas em Portugal e não 950, como surgiu na versão original da peça.

