Portugal é o “país do Fold”.  55 mil portugueses optaram por um Samsung com forte recurso ao crédito

Portugal é o “país do Fold”. 55 mil portugueses optaram por um Samsung com forte recurso ao crédito

A marca sul-coreana acaba de apresentar a sua 8.ª geração de dobráveis sob a pressão do aumento global de custos dos componentes. Ao DN/DV, Bernardo Cunha, 'head of Strategy e Product Marketing MX' da Samsung Portugal, revela dados sobre o mercado nacional, onde o modelo mais caro supera o formato mais acessível
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No competitivo mercado dos smartphones, a Samsung acaba de jogar as suas próximas cartas com o anúncio global da sua nova linha de dobráveis: o Gala Z Fold8, o estreante topo de gama Galaxy Z Fold8 Ultra (com apenas 4,1mm de espessura aberto) e o modelo em concha Galaxy Z Flip8. Mas por trás da folha de especificações técnicas decorada com Inteligência Artificial nativa do Gemini e novos materiais – como o titânio – esconde-se uma batalha silenciosa de posicionamento de mercado. Num momento em que as fabricantes chinesas (como a Honor e a Motorola) registam crescimentos rápidos na Europa – e a Apple prepara a sua entrada neste formato –, a Samsung Portugal revela que o mercado nacional continua a comportar-se como um autêntico “oásis premium” na Europa, ancorado em soluções financeiras e crédito ao consumo.

Bernardo Cunha, head of Strategy e Product Marketing MX da Samsung Portugal, em conversa exclusiva com o Dinheiro Vivo, colocou os números em perspetiva. O número de utilizadores de smartphones dobráveis da marca em Portugal já superou uma barreira histórica: “Estamos, neste momento, com uma base instalada de dobráveis ligeiramente acima dos 55 mil utilizadores ativos.” Algo que representa um crescimento sólido face aos cerca de 45 mil registados no final de 2025.

Os novos dobráveis sul-coreanos: o Flip, o Fold Ultra (com câmara  de 200MP)  e o Fold
Os novos dobráveis sul-coreanos: o Flip, o Fold Ultra (com câmara de 200MP) e o Fold FOTO: DR / Samsung

Há uma característica no consumidor português que o diferencia dos seus congéneres europeus. Se na Europa o formato Flip (em concha, mais compacto e acessível) historicamente lidera as preferências, por cá é o formato Fold (livro), cujo preço se situa confortavelmente na fasquia dos 2000 euros, que tem ‘mais saída’.

“Portugal é um caso relativamente particular nesse tema, em que a maioria dos portugueses escolhe um Fold”, diz Bernardo Cunha. “Na Europa, o ano passado aproximou-se mais dos 50/50, mas em Portugal, historicamente, a proporção é de 60/40 a favor do Fold.”

Grande parte das compras é feita a crédito

Como se explica que um país com um poder de compra teoricamente inferior ao da média europeia consuma maioritariamente o modelo mais caro e tecnológico da marca? O responsável da Samsung aponta para duas dinâmicas muito nacionais: o canal empresarial (B2B) e a cultura de financiamento.

“Existe uma grande parte dos equipamentos que são comprados com soluções profissionais, onde os vários players concorrem de forma muito agressiva, o que acaba por diluir o valor médio do custo para as empresas”, nota Bernardo Cunha.

Mas o grande motor é mesmo o crédito ao consumo: “Temos uma elevada percentagem de compras a crédito. Especialmente nos períodos de lançamento, temos mais de metade dos produtos vendidos a crédito, o que acaba por diluir o impacto do upgrade.” As soluções de crédito sem juros, altamente enraizadas no consumo português, são um forte catalisador no retalho nacional e ajudam a explicar a adoção de produtos mais caros, sublinha.

30% dos compradores vêm da concorrência

Embora o mercado de ecrãs flexíveis continue a ser, para todos os efeitos, um segmento de nicho no bolo total das telecomunicações, Bernardo Cunha confirma que este é o motor de tração mais dinâmico do retalho tecnológico. “É o segmento que, provavelmente, em termos de categoria de produto, mais cresce em número absoluto”, corrobora o executivo, reforçando que, dentro do universo de telemóveis topo de gama, o dobrável se tornou a área de crescimento mais acelerada.

O aumento constante desta base de utilizadores em Portugal não se faz apenas através da fidelização interna. Há uma forte componente de conquista de mercado (conhecida no jargão como conquest rate). De acordo com os dados partilhados pelo head of MX da subsidiária portuguesa, quase 70% dos atuais utilizadores de dobráveis Samsung não migraram de um dobrável anterior, mas sim de smartphones de formato tradicional (barra).

Mais relevante ainda para a liderança da marca em Portugal: “Da totalidade de pessoas que entram nos nossos telefones dobráveis, mais de 30% são pessoas que nunca tinham tido Samsung”, o que indica uma migração direta a partir de outros ecossistemas, incluindo o iOS da Apple.

O “Ramageddon” dos chips

O lançamento do Galaxy Z Fold8 Ultra, que quer afirmar-se como um colosso de produtividade e com câmara de 200 megapíxeis e uma espessura de apenas 4,1mm quando aberto, surge numa altura em que marcas como a Honor têm feito do design ultrafino o seu principal argumento de venda. Ainda assim, Bernardo Cunha recusa classificar este novo alinhamento como uma resposta direta à concorrência asiática.

O executivo explica que a divisão da gama Fold responde estritamente a uma fragmentação clara que a marca identificou no comportamento dos utilizadores após oito gerações de aprendizagem: “Nós, ao longo destes últimos oito anos, percebemos que, acima de tudo, as pessoas se dividiam em dois grandes blocos quando utilizam um telefone dobrável: ou o utilizam para uma característica mais profissional, de performance, de multitarefa, de exigirem mais da capacidade do telefone; ou utilizam-no como, acima de tudo, uma experiência multimédia, onde podemos ter uma espécie de minicinema portátil, portanto para consumo de vídeo, para consumo de redes sociais, etc. Isto levou-nos a criar dois produtos diferentes.”

“Quisemos colocar o Fold8 Ultra, com esse nome, para garantirmos uma conceção de produto que seja mais fácil de perceber por parte do consumidor. Ou seja, é o nosso produto criado para mais performance, para multitarefa, para outras soluções que sejam mais complexas de processar num smartphone”, detalha Bernardo Cunha.

“O aumento de matérias-primas e os constrangimentos de produção afetam-nos diretamente, porque as nossas áreas que produzem chips também vendem externamente”

Em contrapartida, o Fold8 Standard assume-se como o modelo idealizado estritamente para o entretenimento, com rácios de ecrã de 10:16 no exterior e 4:3 no interior, uma geometria desenhada para maximizar a área útil de vídeo e diminuir as barras pretas.

A proposta de valor premium que os dobráveis representam é também afetada por fatores exógenos, nomeadamente a crise de preços nos semicondutores e memórias - um fenómeno apelidado no setor como Ramageddon. Mesmo sendo uma empresa verticalmente integrada (onde a Samsung produz os seus próprios componentes), a marca não está imune às flutuações globais.

“O aumento de matérias-primas e os constrangimentos de produção afetam-nos diretamente, porque as nossas áreas que produzem chips também vendem os seus produtos internamente e externamente a preço de mercado”, afirma Bernardo Cunha. Esta realidade enterrou, para já, o sonho de ver os smartphones dobráveis ao mesmo preço dos telefones de formato tradicional. “Neste momento, não é um caminho que seja possível”, admite. “O que está a acontecer na indústria, como um todo, só dificulta esse caminho.”

“Fortaleza” contra a Apple

Com o mercado a antecipar que a Apple possa lançar o seu primeiro iPhone dobrável a curto prazo, a Samsung prepara-se para defender o seu território. Mas não revela sinais de nervosismo. Bernardo Cunha diz mesmo que a entrada da gigante de Cupertino é vista com bons olhos: “Olhamos para isto como um bolo que está a aumentar e não como uma fatia que está a diminuir. A entrada de novos players traz mais pontos de comunicação que ajudam o consumidor a perceber os benefícios de um dobrável”, garante.

O grande trunfo da tecnológica sul-coreana, diz, reside no histórico acumulado de durabilidade mecânica e otimização de software ao longo de quase uma década de testes reais: “Estas oito gerações de produto trouxeram-nos uma aprendizagem sobre a forma como as pessoas usam, desgastam e sobre a durabilidade dos materiais que nenhum concorrente consegue equiparar neste momento. Nós arriscámos quando ninguém o quis fazer”, conclui.

Em Portugal, a fortaleza dos dobráveis da Samsung parece estar, para já, bem defendida por uma base sólida de 55 mil entusiastas que, mês a mês, continuam a preferir o ecrã flexível – mesmo que para isso tenham de recorrer à folha de cálculo do financiamento familiar.

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