O setor da moda começa a dar sinais de retração. Nos primeiros quatro meses do ano, as exportações da indústria têxtil e do vestuário caíram 2,3% face a um ano antes, para os 2031 milhões de euros. Destes, 1187 milhões são referentes a vestuário que, apesar de uma quebra substancial nas vendas de roupa de malha, está ainda a subir 1%. Também o calçado cresce 1%, para os 640,7 milhões de euros.
Em termos de mercados, e analisando os três maiores principais clientes da indústria portuguesa de têxtil e do vestuário (ITV), só a França está a expandir neste arranque de ano, com 340,6 milhões de euros, mais 3,8% do que no mesmo período de 2022. Espanha, o maior destino das exportações nacionais, está a cair 1,5%, para 469,2 milhões e a Alemanha perde 4,4% para 183 milhões. Destaque ainda para as quebras de Itália (-14%), do Reino Unido (-10,9%) e dos EUA (- 7,6%). A Bélgica cresce 1,5% para 51,8 milhões.
O vestuário é responsável por 58% das exportações totais da ITV, num total de 1187 milhões de euros. Destes, 810 milhões são assegurados pela venda ao exterior de artigos de malha, o segmento que está a ser mais penalizado, com uma quebra de 5,3%. Mas o crescimento de 17,4% nas peças mais formais, em tecido, compensou as perdas das malhas. Números que não surpreendem o presidente da associação do vestuário, a ANIVEC, dado que este foi o segmento mais afetado durante a pandemia. Mas a incerteza é grande.
"O governo tem que rapidamente começar a implementar medidas de apoio às empresas, seja ao nível da tesouraria, com um papel mais ativo do Banco de Fomento, seja ao nível da formação profissional. Precisamos de aproveitar a redução da atividade das empresas para qualificarmos os nossos trabalhadores e prepará-los para o futuro", defende. César Araújo garante que "não se trata de subsidiar as empresas, mas de manter o ecossistema unido", até porque, frisa, "não foi o setor económico que provocou esta guerra, foram outros interesses, e as empresas por si só não têm forma de alterar a situação".
O presidente da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal concorda. "A situação do setor está bastante difícil. A guerra está a gerar uma diminuição da procurar e tudo indica que pode durar ainda muitos meses", refere. Mário Jorge Machado - que está em Itália de visita à ITMA, a maior e mais importante feira internacional de tecnologia para a indústria - garante que o sentimento não é exclusivo dos portugueses. As carteiras de encomendas estão "muito reduzidas e deprimidas", com quebras de 20 a 30% em relação ao que é habitual nesta altura do ano, e isso é transversal a toda a fileira, desde a venda de máquinas e equipamentos, até ao segmento de vestuário.
Porque a situação é conjuntural e não estrutural, o setor reclama "mecanismos de adaptação", seja através de programas de formação, que mantenham os trabalhadores ocupados, seja mediante regimes de lay-off simplificado e apoios, com garantia do Estado, que permitam às empresas em maiores dificuldades ultrapassarem a crise. "O Ministério da Economia já está ciente das dificuldades que o setor está a atravessar com esta diminuição da procura, mas vamos tentar agendar uma reunião proximamente. Pretendemos, em conjunto, encontrar soluções para as empresas não colapsarem".
No calçado, as exportações extracomunitárias estão a crescer quase 5%, compensando a performance anémica dos principais mercados do setor. A Alemanha e os Países Baixos, respetivamente o primeiro e terceiro maiores destinos dos sapatos portugueses, estão em linha com o ano passado. Espanha, Bélgica e EUA estão a cair 5,6%, 4,7% e 2,2%, respetivamente, enquanto França, o segundo maior mercado externo, está a crescer quase 4%, para 134,2 milhões. Destaque ainda para a boa performance em Itália e no Reino Unido, que crescem 21,9% e 27,3%.
"A situação económica dos principais destinos das nossas exportações está muito frágil - ainda há dias o Eurostat anunciou que a zona euro está em recessão técnica -, e haverá sempre alguma contenção a nível do consumo. Além disso, o setor do retalho ainda não recuperou de dois anos de pandemia e só no nosso mercado de referência, o alemão, fecharam no ano passado mais de 1500 sapatarias", diz o porta-voz da associação do calçado, a APICCAPS.
Paulo Gonçalves sublinha que "todos os sinais apontam para que este vá ser um ano muito exigente para as nossas empresas, que obrigará a uma atitude comercial mais agressiva, na conquista de novos mercados e novos consumidores".