Prolongar o prazo das metas do 5G por um ano e promover um diálogo entre players e autoridades em 2023 e, novamente, em 2024 para fazer um ponto de situação "poderia ser uma medida" a tomar pelo regulador para diminuir a probabilidade de incumprimento do plano nacional delineado para a nova tecnologia. A sugestão surgiu na segunda-feira do presidente executivo da Vodafone Portugal, Mário Vaz, num encontro com jornalistas no âmbito dos 30 anos de atividade da telecom.
Não foi a primeira vez que o responsável da Vodafone alertou para a dificuldade de se cumprirem as metas do 5G. Fê-lo aquando do congresso anual da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações (APDC), em maio, e em junho quando fez saber que alertou diretamente o governo para a necessidade de ponderar alterações nos prazos. No entanto, foi a primeira vez que sugeriu uma alternativa.
Os operadores têm de garantir a cobertura de 95% da população com 5G até 2025, havendo metas intermédias em 2023 e 2024. Mas, de acordo com Mário Vaz, a degradação do contexto macroeconómico já se está a fazer sentir não só na operação diária das telecom, mas também no desenvolvimento do 5G em Portugal. Os planos de investimento continuam a avançar, mas o gestor notou que há uma linha vermelha que se for pisada terá impacto no cumprimento das obrigações. "Pressão de fazer só por fazer não é boa ideia", lamentou.
Primeiro, lembrou que o alerta que fez ao governo surgiu porque a conjuntura macroeconómica "alterou-se drasticamente desde o fim do leilão do 5G". "As condições [económicas] eram totalmente diferentes", realçou. Por isso, explicou que o aviso surgiu com a intenção de se analisar o que se passa e chegar a uma conclusão. "Acho que temos de ser racionais e estar preparados", disse.
O CEO da Vodafone realçou que ainda o leilão de frequências decorria e já se sabia da escassez de chips e dos constrangimentos nas cadeias de abastecimento. Seguiu-se a guerra na Ucrânia e a aceleração da inflação. "Um conjunto de fatores" que fizeram disparar as sirenes não só da Vodafone, mas de todo o setor. Como noticiou o Dinheiro Vivo, em junho, a questão não é se os operadores vão pedir mais tempo, mas quando o farão - todos já sinalizaram preocupação com a possibilidade de não haver condições para desenvolver o 5G no tempo e moldes previstos.
Do lado do governo, o gestor recebeu "abertura para avaliar e perceber" a situação, mas do lado do regulador não, que "disse que [o que] está escrito [nos termos para o 5G] é para fazer". Ora, Mário Vaz, espera "que haja bom senso".
O homem que lidera a Vodafone Portugal desde 2012 garantiu que esta posição não se trata de uma tentativa dos operadores (neste caso a Vodafone) escaparem à responsabilidade de investir no 5G.
"Temos de ser racionais, ser lógicos, não é dizer não vamos fazer [...] Nós concorremos [ao leilão], aceitamos as regras e pretendemos cumprir", disse. Sublinhando que o setor sempre encarou que as exigências nas metas do 5G seriam para cumprir "com investimento próprio [dos operadores]", ao contrário de outros países, o administrador notou, todavia, que o cumprimento "das primeiras metas não está em causa". O problema é o que virá depois, se a situação económica continuar a piorar.
O responsável disse que o desenvolvimento do 5G começou, em Portugal, mais tarde do que noutros países europeus, como Espanha, devido à morosidade do leilão. Por isso, os "casos de uso do 5G [testes-piloto] estão atrasados". "Estão atrasados em todo o lado, mas Portugal está mais atrasado do que noutros países que começaram mais cedo e têm mais pilotos". Porquê? Porque as empresas não estão a procurar a nova tecnologia, que requer experimentação antes de ser implementada, devido à conjuntura económica.
Mais do que o consumidor comum, o 5G destina-se às empresas, mas na hora de investir os gestores têm outras prioridades, segundo Mário Vaz, face o atual contexto. Por isso, o desenvolvimento da nova rede "está atrasado e o momento macroeconómico não é favorável".
Há "grande incógnita", enfatizou. Mário Vaz explicou também que hoje, na hora de investir e desenvolver projetos para as empresas, a Vodafone tem de encomendar componentes com um ano de antecedência. "Hoje tenho de comprar, fazer encomendas que só vão chegar daqui a um ano, se não, não tenho equipamento", alegou. "É por isso que não podemos olhar para as metas por serem só metas", prosseguiu.
Neste ponto, Mário Vaz realçou que há que refletir sobre o tema e perceber qual é a probabilidade das obrigações de cobertura no 5G tornarem-se inviáveis, nas atuais circunstâncias. "Há uma linha vermelha que é a inevitabilidade e o cumprir, ou seja, no dia em que os prazos e a execução do plano se mostre totalmente inviável ou que eu tenha de começar a comprar equipamentos com dois anos de antecipação, é uma linha vermelha", alertou.
Daí ter sugerido: "Fazer andar as metas um ano para a frente - poderia ser uma medida - e devíamo-nos sentar [setor, Anacom e governo] em 2023 e depois em 2024 para ver o ponto de situação".
Além da conjuntura macroeconómico estar a afetar o desenvolvimento do 5G, há também, segundo Mário Vaz, outro ponto a afetar a disponibilidade da própria Vodafone para manter o nível de investimento na rede, no atual momento. Segundo o CEO da telecom, o 5G pressupõe mais custos, porque requer um gasto maior em energia.
"Somos um dos maiores consumidores de energia, as nossas redes só funcionam com consumo de energia", disse, acrescentando que o 5G é mais um elemento de consumo de energia, pelo que "tem um impacto muito grande".
"Por exemplo, para o próximo ano é muito difícil, para não dizer impossível, fechar contratos de preço garantido com qualquer fornecedor de energia, ninguém quer arriscar" e "estamos a falar de projeções de crescimento de custos, no caso da Vodafone é mais do dobro do que aquilo que estávamos a prever nos nossos planos", afirmou.
A isto acresce o preço do ferro, utilizado para modernizar as redes, "que também aumentou", segundo Mário Vaz.
Perante o relato deste encarecimento dos custos do lado da empresa, Mário Vaz foi questionado sobre a probabilidade de aumentar os preços dos serviços aos consumidores em 2023. O CEO da Vodafone não concretizou em que medida, mas admitiu ser provável haver um aumento nas faturas mensais.
"Temos feito uma gestão rigorosa para evitar que [estes custos] passem para os clientes", asseverou. Contou que a energia, que pesava até este ano "cerca de 6% a 7%" dos custos operacionais, passou a representar "mais do dobrou, 15% aproximadamente". "Torna-se difícil segurar contratos de fornecimento com preços fixos, porque os comercializadores de energia não querem arriscar", disse.
A Vodafone tem expresso nos contratos com os clientes o direito de poder aplicar em função da inflação oficial do ano anterior um aumento, o que a acontecer pode ser feito durante o primeiro trimestre. "Isto é o que temos no contrato, a decisão de aumento ou não" será tomada "na altura devida", disse o CEO da Vodafone, admitindo que a "inflação na componente energética nos operadores tem um forte impacto".