

Esta entrevista faz parte de uma série de conversas que o Dinheiro Vivo/DN teve com enólogos e produtores, em plena época de vindimas, sobre o estado da arte do setor e os desafios dos próximos anos.
A seca prolongada, na sequência das alterações climáticas, está a tornar-se estrutural no setor. Que evidências têm de que o modelo produtivo atual continua a ser compatível com o novo regime climático?
Acredito que a maior transformação que o setor enfrenta talvez nem seja climática. É económica e cultural. O clima mudou, o consumo está a mudar e o setor terá de mudar também. No Morgado do Quintão partimos de uma base relativamente sólida: vinhas velhas, maioritariamente em sequeiro, castas locais adaptadas ao Algarve, agricultura biológica e práticas regenerativas que melhoram a saúde do solo e a sua capacidade de reter água. Tudo isso aumenta a resiliência, mas não nos torna invulneráveis. O sequeiro não pode ser romantizado: quando deixa de haver água suficiente, deixa de haver produção. A verdadeira questão é outra: como continuamos a criar valor num contexto em que o clima é mais exigente e o consumo diminui?
Que quebra de produção antecipam - se é que antecipam - este ano e até que ponto essa redução ameaça a viabilidade económica das explorações mais pequenas?
No nosso caso, não antecipamos uma quebra significativa. Esta poderá até ser uma das maiores vindimas que já tivemos, porque as novas parcelas começam agora a entrar em produção. Mas uma boa vindima não elimina os desafios estruturais que se vivem no setor. Para muitas pequenas empresa como a nossa, o problema não é um ano difícil. São vários anos difíceis consecutivos, num contexto de custos crescentes e menor consumo. A sustentabilidade económica não depende da quantidade produzida mas sim cada vez mais da capacidade de criar valor.
Com custos de água, energia e mão de obra em máximos históricos, que margens operacionais esperam manter? Há risco real de encerramentos ou consolidação forçada no setor?
Sim, mas talvez o problema não seja apenas a falta de escala. É a insistência num modelo que durante décadas privilegiou o volume. Durante muito tempo, um negócio agrícola de proximidade foi transformado numa indústria de "manufatura". A uva passou a ser matéria-prima, o vinho uma unidade de stock e o produtor ficou cada vez mais distante de quem o consome. Acredito que essa tendência pode começar a inverter-se: a proximidade, a autenticidade e a origem voltam a ganhar valor e isso funciona a nossa favor e dos produtores de menor escala.
Como é que a redução de volume e a alteração do perfil dos vinhos afetam a capacidade de competir em mercados externos onde o preço e a consistência são decisivos?
Portugal dificilmente não ganhará nunca numa competição baseada apenas em preço ou escala. A nossa vantagem está na diversidade, nas castas autóctones, nas vinhas velhas, na autenticidade e na capacidade de produzir vinhos que não poderiam existir noutro lugar… mas na verdade isso também já não chega. O vinho deixou de ser uma compra quase automática. Hoje é uma escolha, e quando alguém escolhe, escolhe relevância. Escolhe qualidade. Escolhe autenticidade. Escolhe marcas que representam alguma coisa. Acho que o desafio do setor já não é apenas produzir grandes vinhos. É construir projetos que façam sentido para as pessoas.
Como se combate esta nova vaga de campanha contra o consumo de vinho, em todo o mundo, mas de forma particular em Portugal onde há cada vez mais vozes a alertar para os efeitos nocivos do seu consumo?
O vinho deve ser consumido com responsabilidade e moderação. Mas também não podemos aceitar que seja reduzido apenas ao seu teor alcoólico porque para além de álcool há outros ingredientes importantes no vinho: há agricultura, paisagem, património, cultura, gastronomia e economia rural. Faz parte da identidade de muitos lugares e de milhares de famílias. A resposta não passa por incentivar as pessoas a beber mais mas sim ajudá-las a beber melhor, com mais consciência, mais qualidade, uma maior ligação à origem e uma maior sentido. O vinho pode ser das poucas bebidas “conscientes”.
Que investimentos estão a ser feitos e decisões concretas estão a ser tomadas para adaptar a vinha ao novo clima e à nova realidade de consumo?
Continuamos a investir naquilo que acreditamos ser estrutural: solos mais vivos, preservação das vinhas velhas, castas adaptadas ao território, maior conhecimento da vinha e decisões cada vez mais precisas. Mas acredito que a maior adaptação não será apenas técnica. Teremos de encontrar novas formas de criar valor a partir da agricultura. Não olhando apenas para a garrafa, mas para tudo aquilo que uma propriedade agrícola pode representar para quem a visita, a conhece e escolhe fazer parte da sua história. No fundo, durante demasiado tempo fomos vistos apenas como produtores de vinho mas antes disso somos agricultores. E acredito que esse papel voltará a ser muito mais valorizado.
Se as condições climáticas e as reduções sucessivas de consumo dos últimos anos se mantiverem, qual é o cenário mais realista para o setor vitivinícola português nos próximos cinco anos?
Veremos, infelizmente, menos produtores, maior consolidação e uma seleção natural de projetos. Mas também acredito que veremos melhores empresas. Durante muito tempo a indústria mediu o sucesso em litros e garrafas. O futuro pertencerá a quem conseguir criar mais valor a partir da mesma vinha. Aos melhores agricultores, aos melhores gestores e àqueles que souberem criar uma ligação genuína entre o que fazem e as pessoas. O vinho continuará a nascer na vinha, mas o seu valor será cada vez mais decidido na relação que conseguir criar com quem o escolhe.
Quais consideras serem os principais desafios desta vindima e do próximo ano, para o setor, em Portugal?
O primeiro continuará a ser o clima. Mas o maior desafio será provavelmente mudar a forma como pensamos o setor. Precisamos de deixar de medir sucesso em produção e começar a medir sucesso pela capacidade de criar valor, construir marcas relevantes, aproximar produtores e consumidores e devolver à agricultura o protagonismo que nunca deveria ter perdido.