Finanças Pessoais. Soluções para garantir liquidez na reforma

A reforma não tem de ditar o fim do conforto financeiro nem da atividade profissional. Conheça as ferramentas legais para rentabilizar a sua casa, poupar milhares em impostos e manter-se ativo.
Finanças Pessoais. Soluções para garantir liquidez na reforma
D.R.
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A reforma atual sabe a pouco e a verdade é que passámos a vida inteira a poupar com um único foco: comprar casa própria. O resultado? O leitor tem hoje uma grande poupança acumulada em património, mas falta-lhe a liquidez imediata para viver com verdadeiro conforto. Felizmente, existe uma solução financeira que lá fora é quase a regra, mas que por cá ainda poucos conhecem. Vamos descomplicar este mecanismo com números claros.

Imagine vender a sua casa, receber o dinheiro e continuar a morar nela sem pagar um tostão de renda ou empréstimo. Parece bom demais? É o mercado a funcionar através da venda da nua-propriedade com usufruto vitalício.

O comprador passa a ser o dono oficial do imóvel, mas o leitor mantém o direito total de habitar a casa até ao fim da vida. Obviamente, há duas faces da moeda. Por um lado, o comprador assume o risco de não saber quando terá a casa livre. Por outro, o leitor deixa de poder transmitir o imóvel aos seus herdeiros e mantém a obrigação de pagar o IMI, o condomínio e o seguro obrigatório.

Ainda assim, a troca costuma compensar: ganha a almofada financeira que a reforma não lhe dá e, se jogar bem as cartas, pode evitar o imposto sobre as mais-valias recorrendo a produtos financeiros específicos. Vamos ver os números e os exemplos práticos mais à frente.

Este é um modelo já muito explorado em outros países europeus, mas que ainda não é usual em Portugal, porque o bem já não pode ser transmitido aos filhos ou outros herdeiros. Claro que toda esta operação deve ser conduzida por profissionais, ou mediadores imobiliários, contabilistas ou advogados. 

Outra alternativa para injetar dinheiro na reforma é o crédito hipotecário tradicional: dá a sua casa como garantia ao banco para receber um empréstimo que alivie o orçamento mensal. O reverso da medalha surge no momento da sucessão. Os herdeiros terão de assumir essa dívida: ou a pagam do próprio bolso, ou negoceiam um novo empréstimo em seu nome, ou — se a dívida for superior ao valor de mercado do imóvel — podem simplesmente repudiar a herança.

Mas há mais no horizonte. Embora ainda não estejam devidamente regulamentadas na lei portuguesa, existem soluções de futuro promissoras, como a hipoteca inversa (reverse mortgage). Funciona de forma oposta ao crédito normal: quem pede o empréstimo não paga prestações mensais de capital ou juros. Toda a dívida vai acumulando e o reembolso total só é exigido após um acontecimento específico — que, por norma, é o falecimento do proprietário.

Para lá das soluções puramente financeiras, existem formas mais práticas de pôr a casa a render. Uma delas é o arrendamento parcial, seja alugando quartos a estudantes e deslocados, seja registando o imóvel como Alojamento Local (AL). No entanto, o AL exige paciência com a burocracia, implicando, por exemplo, a alteração do uso da habitação, o registo da atividade na Autoridade Tributária e obter a respetiva licença junto da autarquia.

Mas se a ideia é mesmo libertar todo o valor do imóvel de uma só vez, há uma estratégia mais refinada — o sale & leaseback. O conceito é simples: vende a casa e, no mesmo momento, assina um contrato de arrendamento com o novo dono para passar a ser inquilino. É uma excelente forma de conseguir liquidez imediata, mas exige cuidados redobrados com as letras miúdas. Terá de analisar muito bem o impacto fiscal dos impostos e garantir condições blindadas no contrato, especialmente no que toca aos prazos e à renovação do arrendamento.

A vantagem da idade 

A idade traz experiência e, neste caso, traz também uma enorme borla fiscal. Se tem mais de 65 anos ou é pensionista, a lei dá-lhe uma vantagem preciosa: a venda da sua habitação própria e permanente pode ficar totalmente isenta do imposto sobre as mais-valias, mesmo que não compre outra casa. Para isso, basta reinvestir o dinheiro da venda em determinados produtos financeiros — como Planos Poupança Reforma (PPR), seguros do ramo vida ou fundos de pensões — no prazo de seis meses.

Esta rota é um porto de abrigo perfeito se herdou um imóvel ou se planeia mudar-se para um local mais tranquilo durante a reforma, permitindo-lhe converter a casa que tem na cidade num rendimento mensal regular. Claro que podia simplesmente optar pelo arrendamento tradicional, mas convenhamos, isso acarreta obrigações contabilísticas e, pior do que isso, a dor de cabeça constante de gerir inquilinos.

Agora, o aviso importante: nem pense em fazer este investimento hoje e tentar levantar o dinheiro todo no próximo ano. O Fisco está atento e, se o fizer, vai cobrar-lhe os impostos todos de volta. Para manter o benefício fiscal, o leitor assume um compromisso a longo prazo. O plano obriga-o a trancar o capital durante 10 anos antes de o poder resgatar por completo. A boa notícia é que pode ir retirando uma parte todos os anos para complementar a reforma, desde que nunca ultrapasse o teto máximo de 7,5% do valor investido. É, literalmente, a fórmula ideal para criar a sua própria mesada vitalícia, sem surpresas.

E um dado importante, esta possibilidade de investimento com isenção do imposto de mais-valias é cumulativa com a possibilidade de adquirir um outro imóvel para habitação própria e permanente. Uma dupla vantagem. 

Manter-se a trabalhar como empresário 

Chegar à idade oficial da reforma sem penalizações é, na verdade, um passaporte para a liberdade. Pode aproveitar para testar novos projetos ou continuar a fazer o que gosta. E a melhor parte é que a sua carteira agradece. Pode escolher receber a reforma e o ordenado ao mesmo tempo ou, se não tiver pressa, pode adiar a reforma para a frente. Esta última opção é um excelente truque financeiro, já que o Estado lhe dá um bónus que vai engordar a sua pensão final.

Pode manter-se ativo como trabalhador por conta de outrem, ou por conta própria e, neste último caso, qual o modelo legal a seguir. Vamos descomplicar e explicar a diferença entre ser empresário em Nome Individual (ENI) ou abrir uma Sociedade Unipessoal por Quotas. E isto porque os impostos são diferentes, assim como a proteção patrimonial e os custos de manutenção de uma atividade aberta. 

A separação de bens é a linha que divide estes dois mundos. No modelo de Empresário em Nome Individual (ENI) reina a simplicidade: não há qualquer divisão legal entre a pessoa e o negócio. O processo é imediato, bastando abrir atividade nas Finanças para começar a faturar no próprio dia com o seu NIF pessoal. Não precisa de capital social nem de escrituras, mas há um reverso da medalha: a responsabilidade pelas dívidas ou processos é total e recai sobre o seu património pessoal. Por isso, este é um modelo recomendado apenas para atividades de baixo risco.

No plano fiscal, os lucros são tributados diretamente no seu IRS. Se faturar menos de 200 mil euros por ano, está dispensado de ter contabilidade organizada e entra automaticamente no regime simplificado. Aqui, o Fisco aplica um coeficiente para calcular o lucro tributável, assumindo que uma parte do que ganha serve para cobrir despesas. Contudo, fique atento: se o seu rendimento bruto superar os 27.360 euros anuais, terá de apresentar faturas que comprovem que as suas despesas reais atingem, pelo menos, 15% desse valor bruto.  

Do outro lado da balança temos a Sociedade Unipessoal por Quotas, onde a palavra de ordem é a proteção. Aqui, a responsabilidade do sócio fica limitada ao capital social que definiu para a empresa. Se o negócio gerar dívidas que não consiga pagar, o seu património pessoal fica, em princípio, totalmente a salvo — a menos que tenha assinado garantias pessoais ou avales bancários em seu nome.

Contudo, esta segurança jurídica tem um custo operacional mais elevado. O negócio passa a ser tributado em sede de IRC e passa a ser obrigatório ter contabilidade organizada, o que exige a contratação mensal de um Contabilista Certificado (CC). Feitas as contas, a decisão final resume-se a um exercício de equilíbrio: ponderar se o seu projeto envolve mais ou menos risco, e antecipar se vai gerar mais ou menos faturação.

Finanças Pessoais. Soluções para garantir liquidez na reforma
Finanças Pessoais. Pequenos negócios e rendimentos extra

*Esta secção tem o patrocínio do Credibom. Os textos são produzidos pelo Dinheiro Vivo com total independência editorial. Conheça as regras do DN relativas à elaboração de reportagens sobre produtos financeiros.

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