O homem a quem em tempos já chamaram Pretty Boy - puto giro -
afunda as mãos feridas num balde de ferro cheio de gelo. Num ginásio
abafado atrás de uma rua lateral imunda na Baixa de Las Vegas, Floyd
Mayweather Jr inclina a cabeça à medida que o frio diminui a dor
nos seus nós e articulações. Como melhor boxeur do mundo, os
punhos de Mayweather ofuscaram todos os seus oponentes enquanto
compilava um registo perfeito de 41-0 que se estende por 15 anos.
Após uma tarde intensa de treino, o único som que se consegue ouvir
é o do esmagar suave do gelo enquanto Mayweather olha para cima com
um sorriso curioso. Com vontade de ser tão encantador como é
persuasivo, o lutador mostra-me as mãos cintilantes. Elas parecem
surpreendentemente pequenas.
"Sim", diz Mayweather. "Estas são mãos muito
pequenas."
Mas continuam a ganhar-lhe milhões cada vez que luta. Hoje, no
MGM Grand em Vegas (directo na Sport TV, 02h00), cercado por
apostadores, Mayweather recorda porque o tratam por Money. Os números
de pay-per-view para a defesa do seu título mundial de pesos-médios
da WBC no combate desta noite com Victor Ortiz - com 24 anos é uma
década mais novo - assegurarão que Mayweather acumule mais um
prémio milionário.
Vai parecer, então, que Mayweather está de facto a milhas das
prostitutas e dos drogados que se arrastam pela rua um quarteirão
abaixo do ginásio de boxe que comprou. Mayweather encontra aqui
refúgio da vida real. Os seus problemas mais óbvios estão
elencados nas queixas não resolvidas de agressão, espancamento e
coacção apresentadas por várias pessoas, desde a mãe dos seus
filhos a diferentes seguranças que dizem ter sido esmurrados. Também
está envolvido numa guerra épica com o pai, Floyd Sr.
As cicatrizes do mau relacionamento são profundas e remontam ao
momento em que Floyd Sr, na altura um boxeur profissional, no final
dos anos setenta, levantou o bebé Floyd como seu escudo quando foi
baleado. Isso mesmo: escudo. Anos mais tarde, Big Floyd acabou por ir
parar à prisão, depois de ser preso por vender cocaína, e teve de
permitir que o seu irmão, Roger, passasse a ser o treinador de
Pretty Boy. As feridas nunca sararam.
Mayweather Jr tem agora assuntos diferentes em mente. "Vou
voltar aos negócios com estas mãos", diz, colocando-as de novo
no balde de gelo. "Elas permitem-me viver a minha vida. Uma vez,
ganhei um milhão de dólares numa aposta. Bem, também perdi algumas
grandes. Perdi 200 mil dólares. O dinheiro é meu. Posso fazer o que
quiser com ele." Estamos os dois tão apertados em cadeiras tão
perto uma da outra que é difícil parar de suar - mesmo que
Mayweather tenha mais desculpa depois da exibição fascinante do seu
regime de treino nos últimos 90 minutos. A disciplina de ferro
contrasta com o caos que ameaça engoli-lo fora do boxe.
Mayweather foi acusado de muitos crimes e faltas de decência, mas
poucos lutadores conseguem igualar a sua dedicação. Mesmo quando
está fora do ringue, como nos últimos 16 meses, ele nunca está
muito acima do seu peso de combate. E raramente está longe do
ginásio - independentemente das ordens judiciais que se amontoam
contra ele. Este compromisso impressionante floresceu de um lugar
solitário dentro dele. "Exactamente", diz. "Em
criança, estava no meu quarto e jurei: 'Não vou fumar e não vou
beber.' E disse que não ia só dizer isso enquanto era pequeno. Ia
ser fiel a isso em adulto."
A sua mãe foi destruída pela dependência de drogas; e a
situação dela deu força à sua determinação. "Sabe, a minha
mãe passou por momentos difíceis. Bebia. Fumava. Drogava-se. É
verdade que o meu pai era um traficante de droga. Um vigarista. Você
conhece o meu passado. Mas não é assim tão anormal. A maioria dos
jovens negros passa pelo mesmo." Os olhos de Mayweather
pareceram vidrados por um momento. "Eu ficava na cama, na altura
com 9 anos, e dizia a mim próprio: 'Quero ser o homem mais rico do
mundo.' Percorri um longo caminho desde aí. Certo, sou pretensioso.
Mas tenho razões para isso. Continuo zangado e dedicado. Pertenço
ao grupo de pessoas muito fortes."
Mayweather nega as alegações contra si, insistindo que os
processos legais são motivados por vingança ou ganância. "A
minha forma de pensar é a mesma - sempre. Vem com o território. Foi
dito todo o tipo de coisa e acredito que o que tiver de ser, será.
Se sou culpado, prendam-me. Se sou inocente, tudo desaparecerá. Sei
a verdade, não estou preocupado. Temos altos e baixos, mas agora
tenho a mulher certa [a noiva, Shantel Jackson]. Quando estamos
sozinhos, ela conversa comigo sobre determinadas coisas e só quer o
melhor para mim. Há pessoas que são as certas para nós."
Esperar por Ortiz, o perigoso rival de hoje, não parece preocupar
Mayweather. "O boxe é verdadeiramente fácil", diz. "A
vida é muito mais difícil. É por isso que existe uma diferença
entre ser talentoso e ter um dom. Foi um dos dons que Deus me deu:
ser o melhor. Sinto a responsabilidade de estar à altura deste dom.
Não tenho nada contra outros campeões lendários. Mas eu sou o rei
da minha era."
O seu amor pela Grã-Bretanha estende-se aos três Rolls-Royce que
tem. Hoje conduziu o Rolls creme até ao ginásio e, à medida que o
Sol se põe em Vegas, Mayweather dirige-se para o carro na companhia
de três guarda-costas tão grandes que somos diminuídos pelas suas
sombras. Depois de me mostrar o seu carro, reflecte de novo: "Ainda
penso naquele rapazinho de 9 anos", lembrando-se da sua
infância. "Deitado na minha cama. A minha mãe completamente
drogada. O meu pai com imensos problemas. Mas eu tirei-me a mim
próprio desse lugar. Encontrei a dedicação e disciplina como
lutador. Tenho orgulho nisso."
Uns minutos mais tarde, Money abre a janela de vidro fumado do
Rolls-Royce . Exibe um sorriso vencedor e levanta a mão em
despedida. O Rolls-Royce ganha velocidade lentamente, em direcção à
mansão de Mayweather e afasta-se dos clubes de striptease e drogados
solitários que o observam na esquina ao lado do seu ginásio. "É
o Money", grita um deles de repente. "É o Pretty Boy, a
viver a vida."