Frutas, legumes e flores: E depois dos 2000 milhões de euros de exportações?

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O anúncio há muito esperado chegou no início deste ano: Portugal alcançou, pela primeira vez, o patamar dos 2000 milhões de euros de exportações de frutas, legumes e flores. Os dados de 2022, divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), configuram um marco histórico e um objetivo para o qual as empresas portuguesas há muito trabalhavam, apesar dos exigentes desafios com que se depararam.

Este número é o resultado de mais de uma década de investimento, não só na promoção internacional, mas também em inovação e tecnologia. Em volume, as vendas internacionais também cresceram 13,6% para 1835 milhões de quilos. Espanha continua a ser o maior cliente de Portugal na compra de frutas, legumes e flores, com um peso de 35%. França, Países Baixos, Alemanha, Reino Unido e Bélgica seguem-se como os principais destinos da produção nacional em 2022. A União Europeia absorve 80% do total das exportações.

Os principais produtos exportados foram o tomate processado (330 milhões de euros), os pequenos frutos (260 milhões de euros), os citrinos (172 milhões de euros), as peras (111 milhões de euros) e o tomate fresco (79 milhões de euros). As empresas portuguesas estão, por isso, de parabéns. E por diversos motivos. Nestes últimos anos, e num contexto particularmente adverso, em que depois de uma pandemia fomos confrontados com uma guerra, que levou a uma inflação nunca antes registada, as empresas demonstraram uma enorme capacidade de resiliência, o que só prova, mais uma vez, que a aposta no setor é uma aposta ganha e que é, de facto, estratégica para o desenvolvimento económico do país. É também por isso que é preciso reafirmar a urgente necessidade de valorizar o setor agroalimentar e não aceitar a ausência de opções estratégicas, assim como reformas estruturais há muito identificadas e para as quais há uma total omissão de resposta política. Ou seja, precisamos de um Ministério da Agricultura e Alimentação que corresponda a esta ambição de crescimento, com uma estrutura robusta e competente, que trabalhe em estreita colaboração com o setor.

No topo das nossas prioridades tem de estar a questão da água. O setor agroalimentar só é competitivo com acesso a água. Para ser possível um crescimento sustentável é necessário uma aposta em obras que permitam o armazenamento deste recurso. Por um lado, a modernização dos aproveitamentos hidroagrícolas e, por outro, a criação de novas barragens para múltiplos fins. Só assim será possível assegurar o aumento da produção nos países da União Europeia e, consequentemente, a menor dependência de importação de países terceiros.

É hora de assumir a visão e a coragem política de canalizar a maioria dos apoios para as organizações de produtores, incentivando os pequenos produtores a integrarem essas estruturas. Um setor menos organizado é um setor com menor poder de negociação e, portanto, menos competitivo.

Um setor que exporta mais de 2000 milhões de euros não pode ficar mais tempo à espera de estratégia e de investimento em promoção. Só com estas respostas será possível maximizar o valor de venda e remunerar adequadamente os produtores. A cadeia agroalimentar tem de trabalhar em parceria: produção, logística, indústria e distribuição têm de assegurar alimentos seguros, de qualidade e a preços justos.

Na última década, o setor sustentou o seu crescimento com base na inovação, conhecimento e tecnologia. Com uma estratégia adequada podemos renovar e reforçar essa ambição. Um trabalho conjunto, com respostas políticas adequadas e a execução de reformas estruturais, há muito adiadas, permite-nos acreditar que Portugal pode atingir o objetivo de 2500 milhões de exportações de frutas, legumes e flores em 2030. Não será pelas empresas portuguesas que este crescimento não será alcançado.

Diretor do programa GAIN - Direção de Empresas da Cadeia Agroalimentar da AESE Business School