O que são as cidades do futuro? Os cartoonistas William Hanna e Joseph Barbera imaginaram-no, no início da distante época de 1960, sob a forma de cidades suspensas nas nuvens, carros voadores e robôs para tudo e mais alguma coisa - Os Jetsons, a meu ver, mais que entreter, tiveram um papel essencial na fomentação das ideias sobre o potencial avanço tecnológico e de emissões zero da nossa sociedade.
Dois dos pontos anteriores estão muito perto de se concretizarem, como sabemos. Há já protótipos de carros voadores, e a robotização e automatização estão presentes em inúmeros aspetos da nossa vida. As cidades, no entanto, precisam de se sustentar em terra antes de pensarmos em elevá-las rumo às nuvens. Existem dois obstáculos principais que se sobrepõem e simultaneamente se misturam quando refletimos sobre a evolução dos centros urbanos: as alterações climáticas e infraestruturas.
Para estas duas barreiras, a resposta confina-se em grande parte aos limites das urbes. Como aponta a Boston Consulting Group em estudos que abordam o planeamento e futuro da mobilidade urbana, atualmente a população das grandes cidades representa perto de 55% da população mundial, correspondendo a aproximadamente 80% do PIB mundial - números estes que, até 2050, deverão aumentar para 70% e 90%, respetivamente. Com previsões da subida do nível do mar em dois metros até ao fim do século, a mensagem que tanto se passa para combater o aquecimento do planeta ganha novo ressoar.
É aqui que pensar as cidades e, sobretudo, as do futuro, se revela crucial. A aposta na expansão dos transportes públicos, e em meios de mobilidade partilhada, assentes em fontes de energia menos danosa e integrados numa oferta multimodal para as nossas deslocações, revela-se uma solução cada vez mais abraçada pela população; longe vão os tempos em que a micromobilidade era vista como uma atividade meramente turística.
A opção da mobilidade partilhada, por um lado, tem gerado algumas preocupações pela falta de adaptação estrutural das cidades. No entanto, já existem soluções em Portugal que colaboram com as infraestruturas de transportes públicos para incluir estes meios, provando que o modelo de multimodalidade é viável para quem necessita deles diariamente. Contudo, se descartarmos as alternativas de mobilidade que promovam viagens mais ecológicas, o setor dos transportes não terá o desenvolvimento necessário a tempo da mudança que o planeta pede.
Por outro lado, este desenvolvimento tem de estar aliado a políticas mais direcionadas para esta "nova" mobilidade, como a mobilidade partilhada ou as viagens em carros TVDE. Neste sentido, como tudo o que é tecnologia inovadora, torna-se necessária uma regulamentação do lado da administração pública, que esteja à altura do desafio. Esta deverá promover a adoção destes meios pela população, elevando igualmente a educação para o seu correto uso - sobretudo no caso da mobilidade partilhada; só assim conseguiremos ultrapassar as barreiras que ainda se impõem. São precisas políticas que, por um lado, não restrinjam a flexibilidade no modelo de negócio destes serviços; e, por outro, que invistam na renovação da paisagem urbana por forma a dinamizar, e não a limitar, estas alternativas sustentáveis que podem tão bem complementar a oferta dos transportes públicos.
No fim de contas, quantos de nós não nos queixamos por não termos autocarros com horários mais frequentes ou de irmos apertados, que nem "sardinhas em lata", no metro? A melhoria das condições públicas e partilhadas de transportes, não só nos centros das cidades mas também nas periferias, terão que acompanhar o crescimento populacional nas áreas metropolitanas. Imagine-se quanto tempo e dinheiro não pouparíamos no trânsito e em combustível, para não falar da séria diminuição das emissões de gases poluentes.
Neste momento, com as infraestruturas dedicadas aos carros ou veículos pessoais a ocuparem uma fatia maioritária das cidades, este investimento irá inevitavelmente conduzir à libertação de áreas urbanas. Nestas, por forma a construirmos cidades para as pessoas, abrir-se-iam também um leque de oportunidades, nomeadamente para mais parques públicos ou espaços verdes - por outras palavras, novas zonas dedicadas a promover uma melhor qualidade de vida, que a população citadina pudesse aproveitar realmente.
Como sempre o fizemos, desde que o primeiro carro começou a circular e as cidades responderam em conformidade, também acredito que o que basta é um empurrão na direção certa desta ideia, neste caso para começarmos uma viagem mais sustentável, e que as próximas gerações possam continuar a ter os pés no chão - ainda que cidades suspensas continuem a ser uma visão futurista verdadeiramente inspiradora.
Andrea Vota, Responsável de Public Policy da Bolt para a Europa do Sul