Há uma nova moeda, chama-se Lixo e é só para alguns

Já ouviu falar na nova moeda? Chama-se Lixo e é só para os residentes de Campolide, bairro de Lisboa.
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Com a vontade de "a partir do seu cantinho começar a construir um mundo melhor", André Couto, Presidente da Junta de Freguesia de Campolide, criou a iniciativa "Pago em Lixo".

O "Pago em Lixo" pretende ser o "pontapé de saída" para uma mudança de mentalidades, onde, segundo o autarca socialista, "Portugal tem tanto que progredir".

Esta ideia passa por educar a população acerca da importância do despejo consciente do lixo e da separação do mesmo. Com foco nos resíduos recicláveis, isto é, vidro, papel ou pilhas, por exemplo, o "Pago em Lixo" pretende igualmente estimular e consciencializar os cidadãos para a colocação do lixo orgânico nos devidos locais, visto existir um excesso de lixo despejado nas ruas.

A campanha, que está a ser construída há mais de um ano e que conta com quatro padrinhos, nasceu devido à preocupação sobre a higiene urbana e vai funcionar da seguinte forma:

1. Primeiro, o residente da freguesia de Campolide terá de levar o lixo a um dos pontos de recolha, os quais estarão disponíveis em dias previamente estipulados, de modo a que o lixo seja pesado e despejado no contentor correspondente. A recolha é, assim, focada em ações – a decorrer duas a três vezes por semana, com incidência nas manhãs do fim de semana - para diferentes microclimas da região, nos quais se inserem: Alto de Campolide, Bairro da Serafina, Bairro da Bela Flor e Bairro da Liberdade;

André Couto explicou que a criação de uma moeda local surgiu porque, em primeiro lugar, era importante "arranjar um tema sexy" e dinheiro é sempre chamativo. Além disso, desta forma, não ajudam apenas o meio ambiente, como também o comércio tradicional.

Com um investimento de 15 mil euros, nesta primeira fase da campanha ambiental, o "Pago em Lixo" conta para já com a parceria de 70 estabelecimentos. Para os comerciantes, o projeto funciona como um incentivo, "é uma relação de benefício (...) não há perda para o comerciante", sublinha o autarca.

O lojista aderente terá um contrato com a junta, assim, quando receber a moeda Lixo, poderá trocá-la por euros até ao final da campanha na junta de freguesia (em moeda real, 1 Lixo é equivalente a 1 euro).

Como referiu o presidente de Campolide, "ninguém vai enriquecer com esta campanha", pelo menos não a nível monetário, pois, devido às regras locais, os consumidores não conseguirão juntar "mais de 20 euros". Exatamente para que as notas não fossem de fácil contrafação este foi um projeto que levou algum tempo até ser iniciado. O autarca, de 36 anos, sublinhou que cada exemplar é "numerado e leva o selo branco da junta de freguesia, não permitindo fraude" – deste carimbo existem somente dois exemplares. São 3500 notas de produção própria, as quais são feitas num papel "pouco comum" e plastificadas.

O desafio atual, segundo o presidente da junta, passa por levar a iniciativa a a outras freguesias. "Estamos de portas abertas para outros municípios interessados, o projeto é possível de executar noutras freguesias", sublinha. A junta de Campolide disponibiliza o plano a quem o queira executar, "basta quererem comparticipar o projeto", refere André Couto.

O autarca confessa que um dos principais problemas é o facto de se atirar lixo para a rua com bastante leviandade, tal como grande parte dos cidadãos, com animais de estimação, que não exercem a sua função de recolha dos dejetos caninos. Este problema de higiene nas ruas da capital tem sido uma das grandes batalhas do presidente, que espera "sensibilizar pessoas dos 3 aos 100 anos" com esta iniciativa, a qual irá passar pelas escolas e pela universidade sénior da freguesia. Sem prazo definido, o projeto "Pago em Lixo" "irá depender da adesão, se for maior que o esperado prolonga-se", conta o presidente de Campolide.

Os padrinhos da campanha

O ator Vítor de Sousa, o cantor Carlão e os apresentadores Eládio Clímaco e Fernando Alvim são as caras deste "despertar para um ambiente melhor".

Vítor de Sousa diz ter aceite o convite e aderido à campanha pelo facto da iniciativa "ser um benefício não só para a própria junta, como para a própria pessoa".

Eládio Clímaco explicou que a campanha é muito importante para impulsionar uma maior higiene pública na freguesia, "temos de colaborar, temos que jogar em equipa. Portugal tem de jogar em equipa para chegar a bom porto". Fernando Alvim, no vídeo exibido durante a apresentação do projeto, referiu que "é importante as cidades renovarem-se (...) e acima de tudo respeitarmo-nos".

Por sua vez, o padrinho Carlão explicou que Campolide é um "bairro amigo" e esta campanha é importante para "estreitar laços da comunidade com o comércio local, pois, no fim do dia, nunca é como ir a uma grande superfície, fria e impessoal", indo, desta forma, ao encontro de Eládio Clímaco, o qual afirmou que a iniciativa é relevante para o comércio local, fazendo com que este consiga "ver uma luz ao fundo do túnel".

Prémio European Public Sector Award

A junta de freguesia de Campolide recebeu o prémio European Public Sector Award em 2015 devido ao projeto Celeiro Solidário. Um projeto que orgulha muito a junta de Campolide "enquanto município, mas especialmente enquanto país" e que já foi replicado a outros países e cidades, conta o presidente em entrevista ao Dinheiro Vivo.

A iniciativa, iniciada em 2009, surgiu devido à perceção que André Couto teve da quantidade de alimentos que eram desperdiçados tanto em cafés, como restaurantes e supermercados, "alimentos que não tinham sido servidos e estavam em bom estado para serem consumidos e eram deitados lixo", conta o autarca. Conseguindo sensibilizar a ASAE, com ajuda do comandante Costa Pereira da TAP, a junta de Campolide desencadeou uma alteração legislativa, a qual deu azo àquilo que hoje conhecemos como projeto Re-food.

Assim, a iniciativa "Celeiro Solidário" partiu da ideia de que era importante fazer perceber aos cidadãos que, "quando deitamos uma alface para o lixo, essa alface tem o combustível do veículo que a transportou, tem as horas de trabalho de quem a cultivou, tem a água de quem a regou. Portanto, uma alface em si tem uma pegada ecológica e uma pegada financeira de investimento por trás, que era um crime se fosse para o lixo", afirma o presidente.

A junta envolveu parceiros locais, como a paróquia de Santo António de Campolide, os quais faziam a seleção dos agregados familiares que deveriam ser apoiados por este projeto, "acabando por envolver mais tarde todos os apoios alimentares de Campolide, o que permitiu fazer um cruzamento de dados e perceber que havia famílias a ir buscar alimentos a três locais diferentes. Tal, possibilitou que cada agregado passasse a deslocar-se apenas a um local e permitiu aumentar, desta forma, a recolha do número de alimentos a custo zero, alargando, exponencialmente, o número de famílias apoiadas", explica o autarca.

Além disso, com investimento próprio, foi criado pela junta de freguesia um percurso, realizado por uma carrinha e um funcionário, que passa por fazer a recolha diária junto dos hotéis, restaurantes e cafés. Com formação específica da ASAE e de acordo com as suas leis, a equipa de Ação Social recolhia os alimentos, separava-os em lotes, tendo o cuidado de não colocar alimentos contrários à religião ou aos problemas de saúde do agregado no mesmo saco, e entregava-os às famílias.

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