É produzido atrás das grades, mas pretende ser uma porta de entrada para o mundo. O vinho Inclusus resulta de uma parceria entre o Estabelecimento Prisional de Leiria (Jovens) e a AdegaMãe, em Torres Vedras.
“Queríamos valorizar o trabalho dos reclusos e promover também competências profissionais”, explica Joana Patuleia, diretora do estabelecimento prisional. A verdade é que esta prisão-escola, como é conhecida, desenvolve uma série de atividades com o objetivo de capacitar e formar os reclusos - dos 16 aos 21 anos (com a possibilidade de permanecerem até mais tarde) -, com vista ao sucesso da sua reinserção social.
No EP de Leiria (Jovens), a vinha ocupa seis hectares e produz, anualmente, 14 mil litros de vinho. “Já tínhamos uma marca criada, mas achámos interessante esta possibilidade de tentar promover mais o vinho. Foi uma forma de alcançar este objetivo, tendo sempre como finalidade o êxito da reinserção e daí também o nome do vinho, um apelo a todos à inclusão”, refere Joana Patuleia. Da produção total, 45% destina-se ao Inclusus.
“Havia uma necessidade do EP de apoio de uma adega para vinificar as suas uvas e para capacitar os jovens reclusos”, conta Bernardo Alves, diretor-geral da AdegaMãe. “As vinhas são em Leiria, dentro dos muros do estabelecimento prisional. O processo é acompanhado por um engenheiro da prisão e pela nossa equipa de enólogos. Após a vindima, as uvas são transportadas para a AdegaMãe, onde são vinificadas e engarrafadas.”
O Projeto Inclusus arrancou com a vindima de 2018, realizada a 34 mãos, ou seja, por 17 reclusos. As uvas dessa colheita deram origem aos primeiros vinhos agora colocados no mercado. Um tinto e um branco, ao todo 8000 garrafas.
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“É um processo longo. Há todo um processo de preparação da vinha: a poda, o trabalho na adega e não só”, explica a diretora do estabelecimento prisional. A trabalhar permanentemente na vinha estão os jovens reclusos em regime aberto. Para isso têm de reunir algumas condições ao nível do comportamento, da sua situação jurídica e mesmo da atitude perante o trabalho. Para os trabalhos pontuais, como a vindima, são envolvidos reclusos em regime comum.
“Este projeto deu-me muitas ferramentas que poderei vir a usar no futuro, visto que a minha família está inserida no meio vinícola e tenho intenções em continuar a atividade deles”, conta Mathieu Pinto, um dos reclusos envolvido na produção do Inclusus. O jovem acrescenta que “o facto de serem os reclusos a tratar das vinhas e o vinho produzido ser divulgado fora de grades mostra que podemos ser produtores de qualidade, o que é um incentivo para a nossa inclusão na sociedade”.
A vindima deste ano já se fez a mais mãos. “Queremos dar mais dimensão, gerar mais postos de trabalho para os reclusos que se encontram a cumprir pena neste estabelecimento”, diz Joana Patuleia.
O vinho está à venda há menos de dois meses, mas apenas em alguns lugares específicos: no EP de Leiria (Jovens), na AdegaMãe, na loja Boa Vizinhança (Rato, Lisboa) e na loja CVR (Mercado da Ribeira, em Lisboa). Custa 3,99 euros.
O objetivo é colocar o Inclusus nos hipermercados e restaurantes. “Agora que temos o produto na mão, há que divulgá-lo. Esperamos que à medida que vamos explicando a sua história aos players de mercado, estes percebam o projeto e tenham também essa vontade”, explica Bernardo Alves. “Inclusus é uma palavra que se calhar, a partir de agora, vai ganhar uma nova vida e um novo significado dentro do que é o mundo prisional em Portugal.”
As receitas geradas pela venda do vinho serão aplicadas na valorização do processo produtivo na prisão-escola, quer ao nível dos salários dos próprios reclusos quer da sua formação ou de maquinaria.
Ainda este mês, os reclusos envolvidos no projeto vão deslocar-se à AdegaMãe para uma sessão de formação em campo e na própria adega. “Vamos apostar na formação técnica destes jovens reclusos. Esse é o nosso objetivo, que saiam daqui tecnicamente mais capazes do que quando cá chegaram”, refere o responsável da adega.
O projeto foi estabelecido durante um prazo de dois anos. Mas, por ser um “vinho que marca pela diferença”, o objetivo é continuar por “muitos e bons anos”.
“Este é um projeto de grande valor simbólico para nós. É um orgulho para a AdegaMãe estar associada ao EP e contribuir para o sucesso de todo o trabalho de reinserção social que tem vindo a ser desenvolvido”, remata Bernardo Alves.