Innov8rs. "Espaço precisa de um ecossistema de inovação forte"

Economia do Espaço está a crescer em Portugal, mas falta ligação entre empresas especializadas no setor e as que podem tirar partido de conhecimento e tecnologia para aplicar em áreas tão distintas como a agricultura, as florestas, o mar ou o ordenamento territorial.
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A presença portuguesa no setor do Espaço tem pouco mais de duas décadas, a partir da adesão do país à Agência Espacial Europeia (ESA). Mas, é a partir de 2012 que ganha alguma velocidade ao nível da capacitação para a produção de uma oferta mais concreta para a indústria aeroespacial, com o contributo, por exemplo, do setor das telecomunicações.

Mais recentemente, com a criação da Agência Espacial Portuguesa e com o apoio e o financiamento de programas europeus, esta indústria posiciona-se agora como fornecedora de soluções a empresas de vários setores. "Há uma mudança de paradigma que permite posicionar o país como um especialista na transferência de conhecimento, mas também no fornecimento de soluções para outras indústrias", afirma Emir Sirage, em entrevista ao Dinheiro Vivo, à margem da conferência Innov8rs que hoje termina em Carcavelos. Para o diretor-geral do Newspace Portugal Agenda e diretor do Programa Space for Business na Nova SBE, o potencial de crescimento da chamada Economia do Espaço "é enorme".

Esta aposta, que o país iniciou com o lançamento da Portugal Space, que tem como missão implementar a Estratégia Nacional para o Espaço através do Programa Portugal Espaço 2030, visa trabalhar em diferentes eixos para que o Espaço seja um garante do bem comum, associado a instituições e ambições coletivas.

Neste contexto, uma das metas passa por transformar os dados gerados e recolhidos pelos sistemas de observação da Terra em produtos vendáveis, onde se concentra o grosso do potencial volume de negócios (mais de 80%, estima a Agência Espacial Portuguesa). Os exemplos são intermináveis, como explica Luís Filipe Lages, professor catedrático e diretor do VCW (Value Creation Wheel) Lab da Nova SBE.

Na agricultura, a possibilidade de monitorização de culturas através de imagens de satélite garante uma maior eficiência na gestão da água, na fertilização dos solos, entre outras aplicações. Aliás, a empresa de comercialização de vinhos, Sogrape, que também marcou presença na conferência Innovat8rs, tem em curso um projeto piloto de monitorização das vinhas através de satélites e drones, o que permite uma análise praticamente planta a planta, reduzindo custos e otimizando o ciclo de vida da cultura.

Durante a sessão que partilhou com Emir Sirage no Innova8rs, Luís Filipe Lages avançou com outros exemplos, nomeadamente, na aquicultura, em que os dados fornecidos por satélites permitem detetar vedações que se deslocam, na pesca, onde podem ajudar a detetar as redes de pesca que se perdem, ou serviços de mensagens - através de IoT - entre barcos e a costa.

Outras aplicações passam por áreas como as florestas ou o ordenamento do território, só para dar alguns exemplos. No fundo, as grandes vantagens da utilização dos dados captados pelos satélites, explica o professor, aportam vantagens como a melhoria de serviço, independentemente da área, mais e melhor qualidade da informação recebida, melhor gestão do território e das pescas, e uma redução significativa do tempo de resposta. "A Nova SBE participa nos programas Nextland e Nextocean, em parceria com um conjunto de outras instituições e empresas, com o objetivo de trabalhar a oferta deste tipo de soluções", reforçou em conversa com o Dinheiro Vivo.

Numa segunda fase, a Portugal Space tem como missão contribuir para a democratização do Espaço. Ou seja, uma maior abertura e atração de investimento privado para este setor que é, para já, dominado pelo investimento público, não apenas em Portugal, mas de forma global.

Esta abertura permitirá ir ainda mais longe na criação de oferta e soluções que hoje nem sequer consideramos possíveis. Na área farmacêutica, exemplifica Emir Sirage, "podemos pensar na produção de órgãos em microgravidade". Mas, as possibilidades são praticamente infinitas e "já não estamos a falar de ficção científica, mas de algo que pode ser uma realidade em poucos anos", reforça. A concretização de alguns dos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) pode igualmente ser acelerada com a ajuda da economia espacial. "Até 2030 veremos vários avanços", acrescenta.

Fruto de todas estas mudanças, os professores apontam o aumento da necessidade de novas competências profissionais e o aparecimento de um conjunto de novas profissões que atualmente não existem como mais uma oportunidade para a requalificação de muita da mão-de-obra atual.

Mas o impacto toca ainda a área da logística e um conjunto de empresas e de negócios que farão parte das novas cadeias de valor. No entanto, alertam, até chegar a este ponto é preciso investir na criação de ecossistemas de inovação fortes que façam a ligação entre os diferentes players do mercado, concluem.

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