InPost está focada “em aumentar a densidade da rede” em Portugal, diz responsável pela operação ibérica
As receitas da InPost subiram 31% para 910 milhões no primeiro trimestre. O resultado da empresa de logística, que entrega encomendas usando cacifos automáticos (lockers) e pequenos comércios locais (pontos pack), foi impactado pelo crescimento internacional. A Península Ibérica, por exemplo, reforçou a sua importância estratégica com a integração da Sending (empresa ibérica de transporte urgente, distribuição e logística) e a expansão da rede de lockers e pontos pack em Portugal e Espanha. O Dinheiro Vivo conversou com o CEO da InPost Ibéria, Marc Vicente, sobre a importância da região e do nosso país para a empresa.
Qual o peso atual da Ibéria e sobretudo de Portugal nas receitas do grupo e qual a meta para Portugal em 2026 e 2027?
A Ibéria é uma região cada vez mais estratégica para o Grupo InPost, sobretudo pelo potencial de crescimento do comércio eletrónico e pela aceleração da adoção de soluções Out-of-Home. Atualmente, apresentamos o reporte financeiro de todo o Grupo InPost por segmentos geográficos (Polónia, Zona Euro e Reino Unido & Irlanda), pelo que não divulgamos publicamente detalhes individualizados por país. Mas no primeiro trimestre de 2026, os mercados internacionais já representavam mais de metade das receitas do Grupo, 53% para ser exato, o que demonstra a crescente relevância das operações fora da Polónia. Dentro deste contexto, a Ibéria tem um papel muito relevante no desenvolvimento da nossa plataforma da Zona Euro, particularmente pela oportunidade de combinar a rede de Lockers e Ponto Pack com a gestão logística dos dois países - Portugal e Espanha. Para 2026, a prioridade em Portugal é continuar a expandir a rede e aumentar a densidade e conveniência das soluções Out-of-Home perto dos consumidores. Ou seja, expandir para chegar mais perto de todos os portugueses. A nossa ambição para o mercado nacional é continuar a consolidar Portugal como um mercado relevante dentro da estratégia ibérica da InPost, acompanhando o crescimento previsto para a Zona Euro.
Que retorno sobre o investimento esperam obter com a integração da Sending e a expansão da rede de Lockers em Portugal?
A integração da Sending é um passo importante na nossa estratégia ibérica, porque nos permite oferecer uma solução mais completa aos comerciantes e aos consumidores: desde entregas ao domicílio, aos Lockers e Ponto Pack, tudo dentro de uma rede cada vez mais integrada. Mais do que olhar para este investimento apenas numa lógica de retorno financeiro imediato, vemos esta integração como um acelerador estratégico. Permite-nos ganhar escala, melhorar a qualidade operacional, aumentar a capilaridade da rede e oferecer maior flexibilidade aos consumidores. O objetivo é que a maior densidade da rede, a migração para soluções Out-of-Home e o crescimento do B2C contribuam progressivamente para uma operação mais eficiente e rentável. Em Portugal, em particular, o retorno esperado está muito ligado à capacidade de aumentar a utilização da rede, reduzir fricções na última milha e oferecer aos comerciantes uma alternativa competitiva, conveniente e sustentável.
Como evolui a rentabilidade operacional da operação ibérica face à média do grupo, nomeadamente em termos de margem EBITDA?
Ao nível da Zona Euro, onde se inclui Portugal e Espanha, a margem EBITDA ajustada manteve-se estável em 13,5% no primeiro trimestre de 2026, num contexto de forte crescimento de volumes e expansão da rede. Esta estabilidade é relevante porque acontece ao mesmo tempo que continuamos a investir na expansão dos Lockers, na densificação da rede e na integração de operações to-door, como é o caso da Sending. Ou seja, estamos a crescer e a investir, mantendo disciplina e sustentabilidade operacional. Naturalmente, a margem da Zona Euro ainda não é comparável à da Polónia, que é o mercado mais maduro do Grupo. Mas vemos uma trajetória positiva: à medida que a rede ganha escala, que a utilização dos Lockers por parte dos consumidores aumenta e que a operação se torna mais eficiente, continuamos a melhorar a rentabilidade estrutural da região.
Que percentagem dos envios na Ibéria é atualmente B2C, C2C e B2B, e que segmentos prevêem crescer mais?
O B2C é hoje um dos principais motores de crescimento na Zona Euro. No primeiro trimestre de 2026, este segmento cresceu 34% em termos homólogos na região, acompanhado também por uma boa dinâmica no C2C. Em Portugal, apesar de não divulgarmos esses dados por país, vemos um mercado que acompanha a tendência muito relevante no B2C, impulsionada pelo crescimento do comércio eletrónico, pela necessidade dos retalhistas oferecerem opções de entrega mais flexíveis e pela maior familiaridade dos consumidores com soluções fora de casa. Mas o C2C também tem potencial, especialmente à medida que os consumidores procuram soluções simples, acessíveis e convenientes para envios entre particulares, como é o caso das plataformas de compra e venda em segunda mão, como a Vinted. O B2B, por sua vez, continuará a ter espaço em casos de uso específicos, mas a maior aceleração deverá vir do B2C e da consolidação do modelo Out-of-Home.
Como tem sido a aceitação dos consumidores portugueses em comparação com Espanha quanto ao uso dos lockers e pontos pack?
Portugal e Espanha estão em fases de adoção diferentes, mas a tendência é comum: os consumidores procuram cada vez mais conveniência, flexibilidade e controlo sobre as suas entregas, seja com negócios, seja entre consumidores. Em Espanha, a rede tem uma dimensão e maturidade superiores, pelo que a utilização está naturalmente mais consolidada. Em Portugal, estamos numa fase de forte crescimento e educação do mercado, e a aceitação tem sido positiva. À medida que a rede se torna mais densa e os consumidores encontram Lockers e Ponto Pack mais perto de casa, do trabalho ou dos seus percursos diários, a adoção tende a acelerar.
Que parcerias estratégicas com retalhistas e marketplaces têm sido fechadas em Portugal e quais estão em negociação?
A nossa estratégia passa por trabalhar com retalhistas, marketplaces e plataformas de e-commerce que queiram oferecer aos seus clientes soluções de entrega mais flexíveis, sustentáveis e eficientes. Não divulgamos detalhes comerciais que estejam sujeitos a confidencialidade. O que posso dizer é que há um interesse crescente por parte dos comerciantes em Portugal em diversificar opções de entrega e reduzir a dependência exclusiva da entrega ao domicílio. Os Lockers e Ponto Pack permitem oferecer uma alternativa conveniente para o consumidor e, ao mesmo tempo, mais eficiente para a operação logística. O nosso foco é continuar a desenvolver parcerias que acelerem esta mudança e que integrem o Out-of-Home como uma opção cada vez mais natural no checkout.
Como influenciam os custos energéticos, logísticos e regulamentares em Portugal a estratégia de preços para comerciantes e utilizadores finais?
A logística é um setor muito sensível à evolução dos custos operacionais, sejam eles energéticos, laborais, imobiliários, tecnológicos ou regulatórios. Portugal não é exceção. A nossa abordagem passa por combinar competitividade comercial com sustentabilidade económica da operação. A grande vantagem do modelo Out-of-Home é que permite aumentar a eficiência da última milha. Ao concentrar várias entregas num único ponto, seja um Locker ou um Ponto Pack, conseguimos reduzir deslocações, minimizar tentativas falhadas e otimizar rotas. Isso ajuda a mitigar parte da pressão de custos e permite oferecer aos comerciantes soluções competitivas. A estratégia de preços tem sempre de equilibrar três dimensões: a qualidade do serviço, a conveniência para o consumidor final e a eficiência operacional. O nosso objetivo é garantir que o Out-of-Home seja uma alternativa atrativa tanto para comerciantes como para os consumidores, sem comprometer a sustentabilidade da rede.
Existem medidas específicas para assegurar cobertura em zonas rurais e ilhas portuguesas e qual o critério de prioridade para novas instalações?
A expansão da rede é feita com base numa combinação de critérios: densidade populacional, procura de comércio eletrónico, localização dos comerciantes, padrões de mobilidade dos consumidores, acessibilidade e eficiência operacional. Numa primeira fase, é natural que a expansão se concentre em zonas de maior densidade e maior volume potencial, porque isso permite acelerar a adoção e garantir uma utilização eficiente da rede. Mas a ambição é tornar as soluções Out-of-Home cada vez mais acessíveis também fora dos grandes centros urbanos. No caso das zonas rurais e das ilhas, é fundamental encontrar modelos de cobertura que sejam sustentáveis e úteis para os consumidores. A capilaridade pode passar tanto por Lockers como por Ponto Pack, dependendo da realidade local. O objetivo é construir uma rede equilibrada, que combine conveniência, proximidade e viabilidade operacional.
Que ações estão a ser tomadas para otimizar a gestão de capacidade e reduzir custos operacionais na última milha em Portugal?
A otimização da última milha é uma prioridade central para a InPost. Em Portugal, como no resto da Zona Euro, estamos focados em aumentar a densidade da rede, melhorar a qualidade logística e integrar de forma eficiente as diferentes modalidades de entrega. A nível da Zona Euro, a InPost tem vindo a racionalizar pontos de recolha e entrega menos eficientes, ao mesmo tempo que acelera a expansão da rede. Esta gestão ativa é essencial para garantir capacidade, reduzir custos e melhorar a experiência do consumidor.
Que indicadores usam para medir o sucesso da rede na Ibéria além do volume de envios e quantas entregas por locker consideram um bom benchmark?
O volume de envios é importante, mas não é o único indicador. Medimos o sucesso da rede através de um conjunto mais amplo de métricas: taxa de utilização dos Lockers, densidade da rede, qualidade de serviço, eficiência da última milha, crescimento do fluxo Out-of-Home, satisfação do consumidor, notoriedade da marca, adesão de comerciantes e desempenho operacional. A questão das entregas por Locker é até um indicador que depende muito da maturidade do mercado, localização, sazonalidade, densidade populacional e perfil de utilização. Um Locker numa zona urbana consolidada não tem o mesmo comportamento que um Locker numa área em expansão. O mais importante é garantir que cada ponto da rede contribui para uma experiência mais conveniente e para uma operação mais eficiente entre consumidores, comerciantes e parceiros logísticos.
Que riscos macroeconómicos e regulatórios mais preocupam a operação em Portugal e que medidas de mitigação estão previstas?
Como em qualquer mercado europeu, acompanhamos com atenção fatores como a evolução do consumo, a inflação, os custos operacionais, a regulação laboral, ambiental e urbana, bem como as exigências associadas à mobilidade e à sustentabilidade. No caso de Portugal, a nossa mitigação passa por investir em densidade de rede, tecnologia, qualidade operacional e diversificação de soluções. Quanto mais eficiente for a rede Out-of-Home, maior será a nossa capacidade de absorver pressões externas e continuar a oferecer uma alternativa competitiva ao mercado.

