Lá voltamos nós ao mesmo: não é o momento certo para a regionalização! Pouco importa que se tenha acumulado evidência de que tal reforma teria efeitos virtuosos. Não é, ainda, acrescenta-se cinicamente, o momento certo. Montenegro não fugiu à regra: não pretende acrescentar um nível intermédio entre governo e autarquias. Nessa mentalidade, centralista e aditiva, há mais um nível! Um equívoco definitivo: regionalizar não é acrescentar mais um nível, é reestruturar o modelo de governação do Estado, dar-lhe uma nova arquitetura, para o tornar mais eficaz (subsidiariedade no processo de decisão) e eficiente (nos custos). O que é o diabo pois significaria mexer com os poderes centrais instalados. Talvez por isso, não se tenha querido nenhum estudo, pago a 100% pelo PRR, sobre modelos de reforma da administração pública...
Em contrapartida, o governo anunciava o novo aeroporto de Lisboa (sem gradualismo) e, não contente, proclamava que iria enterrar (literalmente!) mais uns milhões no aumento da capacidade da Portela e, ainda, construir uma terceira travessia e uma linha de alta velocidade de ligação Lisboa-Madrid. Lá voltamos nós ao mesmo! A tentação centralista pelos grandes projetos no seu estado puro. Pouco importa a evidência de que a região de Lisboa entrou, há muito, na chamada “armadilha de desenvolvimento”, mais lastro do que motor de crescimento económico. O Governo já vê um amanhã que canta: vão ser paletes de turistas (a procura é certa? é este o modelo pretendido?), de investidores que, só com o anúncio, pensaram logo em investir na região, de ganhos logísticos (para a produção feita... noutras regiões), etc..
Com a regionalização congelada, avance uma agenda alternativa! Algumas sugestões: reforçar o aeroporto do Porto (não basta!), acelerar a linha de velocidade alta Porto-Vigo (asseguraria uma outra ligação à alta velocidade espanhola), recolocar, em alternativa, a ligação a Madrid pelo Centro do País, no modelo T-deitado, que melhor serviria o interior e os interesses das regiões exportadoras portuguesas e... Abra-se a discussão!
Alberto Castro, economista e professor universitário