Lagarde. "Infelizmente, não podemos aliviar as famílias que estão a sofrer em Portugal"

"Em países como Finlândia, Portugal, Espanha, é verdade que algumas famílias estão a sofrer porque os reembolsos que têm de honrar junto dos bancos subiram em resultado das nossas decisões de aumentar taxas de juro", disse a presidente do BCE.
Publicado a

As famílias portuguesas, espanholas ou finlandesas que se endividaram junto dos bancos e assinaram contratos de crédito indexado a taxas de juro variáveis (euribor) "estão a sofrer" diretamente o impacto das subidas de taxas decididas pelo Banco Central Europeu (BCE), mas "infelizmente, não as podemos aliviar", disse a presidente do BCE, Christine Lagarde.

Portugal, Espanha e Finlândia são países da zona euro onde a taxa de prevalência de novos empréstimos indexados a taxas variáveis é muito superior quando se compara com outras economias da zona euro, portanto, é onde existem proporcionalmente mais casos de famílias altamente expostas e vulneráveis às subidas de taxas do BCE, que hoje aumentou a taxa diretora central para 3,75% e prometeu aumentar ainda mais e durante muito tempo para "domar" a inflação.

Dados do próprio BCE obtidos pelo Dinheiro Vivo mostram que, atualmente, os novos empréstimos para compra de casa indexados a taxas de juro variável equivalem a 67% do total de novos contratos. A Finlândia lidera este ranking, com 98% do total de novos negócios hipotecários indexados a taxas variáveis. A média da zona euro está nuns meros 24%.

Questionada na conferência de imprensa que se seguiu à reunião das taxas de juro, em Frankfurt, sobre como analisa o stress financeiro que as decisões do BCE (que está a subir taxas de forma agressiva desde julho do ano passado) provocam nas famílias, Lagarde respondeu: "Claro que estamos cientes que há famílias que contrataram empréstimos a taxas variáveis."

"Em países como Finlândia, Portugal, Espanha, é verdade que algumas famílias estão a sofrer porque os reembolsos [amortizações e juros] que têm de honrar junto dos bancos subiram em resultado das nossas decisões em aumentar as taxas de juro diretoras", reconheceu a ex-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI).

"A nossa tarefa é reduzir a inflação e para isso temos de usar as taxas de juro"

"Mas isto é algo que nós, infelizmente, não podemos aliviar ou atenuar porque a nossa tarefa é alcançar a estabilidade de preços e reduzir a inflação", justificou a banqueira central.

E não desarmou. Lembrou que "as ferramentas que temos à nossa escolha e que funcionam a esse respeito são as taxas de juro, e temos de as usar".

Lagarde acrescentou ainda que "alguns países estão a tomar medidas concretas e algumas instituições financeiras estão a analisar a oferta de moratórias e adiamentos" no que respeita ao pagamento das dívidas das famílias.

"Mas penso que o melhor que podemos fazer é domar a inflação de forma atempada, ou seja, o mais rápido que conseguirmos, para depois facilitarmos um regresso a taxas de juro diferentes", mas "não estou com isto a comprometer-me com qualquer corte futuro nas taxas de juro", rematou Lagarde.

(atualizado 16h30)

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt