Mentalidade de crescimento e  importância do esforço na aprendizagem  

O esforço é essencial à aprendizagem e, ao longo da vida, é sempre possível continuar a aprender. São duas ideias-chave associadas ao conceito de "mentalidade de crescimento".
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O conceito growth mindset (mentalidade de crescimento) ganhou popularidade nos últimos vinte anos e tem origem na ideia de que o esforço é o grande motor do desenvolvimento cognitivo. A psicóloga Joana Rato foi convidada a debater o tema com o presidente da Iniciativa Educação, Nuno Crato, na edição desta semana do Educar Tem Ciência, projeto da Iniciativa Educação, em parceria com a TSF e o Dinheiro Vivo.

"O conceito surgiu em 2000 e baseia-se na perspetiva que as perceções ou crenças que temos sobre os nossos atributos cognitivos podem interferir na nossa forma de aprender e até no esforço que podemos fazer nessa aprendizagem", explicou Joana Rato. A psicóloga, autora do ensaio "Mente, Cérebro e Educação" (ed. Fundação Francisco Manuel dos Santos), referiu ainda que investigações mais recentes mostram que uma combinação de fatores psicossociais e psicofisiológicos tem efeitos mais fortes sobre o efeito destas crenças no processo de aprendizagem.

Por seu turno, Nuno Crato lembrou o resultado de estudos recentes, que mostram que intervenções de caráter cognitivo - ajudar a criança a superar as dificuldades que sente numa determinada disciplina, por exemplo - revelaram ter um efeito quatro vezes superior a intervenções cujo objetivo é mudar a atitude perante a crença e incutir confiança ao aluno.

Na realidade, como explicou Joana Rato, o conceito afasta-se do discurso motivacional e destaca a importância da neuroplasticidade. "Fala de como é importante a nossa perceção de como somos maleáveis. De acordo com o nosso desenvolvimento, vamos tendo esta capacidade de adaptação à mudança - que inicialmente é muito maior e vai diminuindo à medida que se desenvolve o processo de maturação cerebral e o nosso esforço cognitivo vai aumentando para poder fazer essas aprendizagens. Mas, a mensagem é muito clara: até ao final das nossas vidas estamos sempre a aprender", sublinhou a psicóloga.

Joana Rato citou um trabalho de 2022, conduzido pelos investigadores holandeses, Tieme W.P. Janssen e Nienke van Atteveldt, "Explore Your Brain", em que foi feito um estudo randomizado, seguido de um ano de follow up. "Introduziram uma nova dimensão, em que as crianças viam algo a acontecer e utilizaram o neurofeedback para que elas percebessem, por exemplo que, numa determinada atividade, quanto mais mantivessem a atenção, mais uma bola se movia", explicou Joana Rato, para quem o caráter dinâmico da experiência é determinante. "Voltamos a afastar-nos do discurso motivacional: Não é só dizer "és capaz" mas, em vez disso, dizer "experimenta fazer esse esforço e vê o resultado que isso dá"", referiu. Ao fim de um ano os investigadores registaram diferenças nos grupos em que foi feita a combinação de fatores psicossociais e psicofisiológicos e em que foi possível passar às crianças o potencial da neuroplasticidade. "Mesmo as crianças que possam ter tido insucessos, ficaram mais resistentes. Desistiram menos comparativamente com as que não tiveram esta intervenção", explicou Joana Rato.

"Para aprender é necessário aumentar a perceção de que, com esforço, vamos poder atingir os objetivos de aprendizagem. Dar essa confiança de que a plasticidade cerebral nos permite aprender ao longo da vida. Com esta mentalidade de crescimento podemos resistir melhor à perceção do próprio erro que nos ajuda a não desistir do processo de aprendizagem", concluiu a psicóloga. "A mentalidade de crescimento, por oposição à mentalidade fixa, é algo que existe nas crianças e que devemos ter em conta", referiu por sua vez Nuno Crato, que lembrou a importância de associar intervenções cognitivas às intervenções sobre a mentalidade de crescimento.

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