Metade da economia está estagnada ou em recessão e inflação vai subir de novo

INE. Agricultura, indústria, construção e boa parte do setor dos serviços dão sinais de exaustão, depois da euforia inflacionista que começou em 2022 e insuflou as contas nacionais. Já as Finanças do PSD revelam que as contas públicas voltaram ao excedente, como no tempo do PS, agora com um brilharete no IRC.
Metade da economia está estagnada ou em recessão e inflação vai subir de novo
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Metade da economia portuguesa estava estagnada, a caminho ou já mesmo em recessão técnica no segundo trimestre deste ano, mostram as contas nacionais ontem divulgadas pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). Valeu a outra metade, evitando que o Produto Interno Bruto (PIB) se despenhasse.

Em termos reais a economia nacional cresceu 1,5% no segundo trimestre (idem no primeiro semestre), manteve-se à tona, mas esta é a marca mais fraca desde o início de 2021, em plena pandemia.

Em cima disto, surgiu a notícia de que a inflação aliviou bastante em agosto (baixou para 1,9%), mas vários economistas avisam que será alívio de curta duração: os preços voltaram a acelerar mais ainda este ano.

Segundo o INE, o PIB "registou uma variação homóloga de 1,5% no 2º trimestre de 2024, taxa idêntica à verificada no trimestre precedente".

"O contributo positivo da procura interna para a variação homóloga do PIB aumentou no 2º trimestre, verificando-se uma aceleração do investimento e do consumo privado", mas o contributo da procura externa líquida "foi negativo, após ter sido positivo nos dois trimestres anteriores".

Portugal agravou a sua dependência externa a nível comercial, "tendo as importações de bens e serviços acelerado de forma mais acentuada que as exportações de bens e serviços".

Por grandes ramos da economia, consegue-se ter uma noção mais clara sobre onde podem estar os maiores constrangimentos.

De acordo com uma análise do Dinheiro Vivo à variação do PIB entre trimestres (em cadeia), atualmente, em Portugal, existem três ramos de atividade que já se encontram em recessão (dois trimestres consecutivos de quebra no respetivo Valor Acrescentado Bruto ou VAB): agricultura e pesca (cedeu 1% em termos reais no primeiro trimestre e 0,8% no segundo); o ramo energia e água (-3,7% e -0,8%); e a Construção, que perdeu quase 1% no primeiro trimestre e 0,2% agora. Juntos estes setores valem cerca de 8% do PIB português, sendo a Construção o mais importante, valendo cerca de 4% da economia.

Mas há mais dificuldades no horizonte. Há atividades que entraram no vermelho neste segundo trimestre. Mais um assim e caem em recessão técnica.

A indústria, que vale mais de 12% da economia nacional, sofreu um retrocesso no seu VAB superior a 3%. Pior: em termos homólogos, o setor industrial está em declínio desde o final de 2022, portanto, há quase dois anos que se debate com uma conjuntura bastante negativa.

O ramo dos serviços, que vale quase 27% (outros serviços que não comércio, alojamento e restauração, transportes, setor financeiro e consultoras), também já se debate com dificuldades. Aqui o VAB cedeu quase 3% face ao primeiro trimestre. Há dois anos que não se via uma contração nesta parte da economia.

Inflação cai, mas deve ser temporário

Como referido, o INE revelou ontem que o movimento descendente da inflação continuou em agosto, tendo a variação homóloga dos preços no consumidor aliviado para apenas 1,9%, já dentro do objetivo programático da Zona Euro e do Banco Central Europeu (BCE).

Vânia Duarte, economista do departamento de estudos do BPI, considera que se trata de uma bom sinal, mas avisa que "alguns obstáculos deverão colocar-se no caminho".

"O Governo anunciou recentemente a retirada parcial dos apoios aos combustíveis (nomeadamente, o descongelamento também parcial da taxa de carbono)" e "a Galp anunciou que vai atualizar os preços da eletricidade e gás natural a partir de outubro, de 9% e 16%, respetivamente".

A analista do BPI Research nota também que "a ERSE tinha anunciado aumentos de 6,9% nas tarifas e nos preços do gás natural a partir também do próximo mês de outubro no mercado regulado".

Assim, tudo considerado, estes fatores "suportam a nossa expectativa de crescimentos de preços mais expressivos nos últimos meses do ano". "Por outro lado, é de assinalar a resistência da componente subjacente, pondo em evidência o arrastamento e a gradualidade do processo desinflacionista", remata a economista.

Défice desaparece: contas públicas voltam ao excedente

Ontem soube-se também que começa a ganhar forma um possível "brilharete" orçamental, como pretende e prevê o governo de Luís Montenegro e Joaquim Miranda Sarmento. Depois de quatro meses de défice público, as contas do Governo voltam a registar um saldo positivo em julho, revelam as Finanças.

O défice orçamental das contas públicas -- que reapareceu em março deste ano, motivando fortes críticas do atual governo PSD-CDS ao seu antecessor do PS -- desapareceu em julho, revelou esta sexta-feira a Direção-Geral do Orçamento (DGO), que é tutelada pelo ministro das Finanças, Miranda Sarmento.

Depois de vários meses de dramatização, com o atual governante das Finanças a afirmar que as contas públicas “estão bastante pior” do que se dizia e o seu antecessor Fernando Medina a ripostar que o País “não tem problemas orçamentais", a DGO vem mostrar que, para já, o verão está ajudar a reequilibrar o erário público.

Depois de um primeiro semestre muito negativo - no período de janeiro a junho de 2024, o País registou um défice público de 2731 milhões de euros -, em julho, as contas inverteram totalmente a situação. Reapareceu um excedente superior a mil milhões de euros (1060 milhões, mais precisamente), apoiado "sobretudo" num forte crescimento do IRC, de quase 35%.

Em termos ajustados, "o saldo orçamental das Administrações Públicas (AP) decresceu 904,1 milhões de euros face ao registado no período homólogo [julho de 2023]", refletindo um aumento da despesa (11,3%) superior ao receita (9,5%)", diz a síntese da execução orçamental divulgada pela DGO.

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