Nada disto é fado  

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À exceção da crise política de 2011, que conduziu à terceira intervenção do FMI no país, não há memória de um ano tão negativo para Portugal nas últimas décadas, como o que agora termina. Por tudo o que teve de atribulado e imprevisível, mas sobretudo por ter exposto as fragilidades do sistema político e contribuído para acelerar o descrédito das instituições.

O primeiro acontecimento digno de registo é o Mais Habitação. Num tempo de memória curta, já poucos se recordam que se tratou de um plano ad hoc, que legislou a correr sobre um problema complexo e que teve, como resultado imediato, uma retração do investimento em construção no primeiro semestre que não se via desde 2014. Além disso, diabolizou uma atividade que representa mais de 40% das dormidas turísticas no nosso país, como é o Alojamento Local.

A comissão de inquérito à TAP foi outro lamentável, mas marcante, episódio de 2023. A opinião pública foi torturada meses a fio com os factos mais insólitos sobre a gestão da transportadora aérea, que custou milhares de milhões de euros aos contribuintes. Mas o debate resultou numa telenovela de segunda categoria, onde o episódio das agressões no Ministério das Infraestruturas ultrapassou, em escrutínio e relevância mediática, os gravíssimos relatos da antiga CEO, que mostraram o nível de interferência política a que a empresa estava sujeita.
O pior do ano estava reservado para o fim, com a demissão de António Costa. Conhecidos os factos da investigação, ninguém de bom senso poderia conceber outra saída que não passasse pela convocação de eleições antecipadas. Apesar disso, o primeiro-ministro em exercício opta pela estratégia da vitimização, culpabilizando toda a gente, menos a si próprio, por ter malbaratado uma maioria absoluta, escolhido mal os seus colaboradores mais próximos e atirado o país para um novo ciclo de instabilidade.

Tudo isto existiu, tudo isto foi triste, mas nada disto é fado. Os portugueses não têm de ser indulgentes com este estado de coisas, nem aceitar a mediocridade como um destino fatal. É urgente haver este sobressalto cívico, que reforce a cultura de exigência e de responsabilização política. Sob pena de virmos a assinalar os 50 anos da democracia com o país em farrapos e eternamente adiado.

Presidente da Associação Comercial do Porto

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