As temperaturas elevadas que assolam o país desde o início de junho, ainda antes da entrada calendarizada do verão, estão naturalmente a impulsionar a procura de aparelhos de ar condicionado no país, onde só 20% das habitações usufruem deste conforto térmico. Mas o fim da medida de apoio à compra, entrega, instalação e manutenção de equipamentos de ar condicionado está a traduzir-se em aumentos ligeiros do negócio. Desde 1 de julho do ano passado que terminou o benefício de IVA à taxa reduzida de 6%.
A decisão de restabelecer a taxa de 23% gerou críticas de vários quadrantes da sociedade. Foi recordado que a pobreza energética é um problema de saúde pública e não se limita aos dias gelados do inverno. E isso comprova-se pelo aumento da taxa de mortalidade no verão. No último estio, verificaram-se 2600 mortes acima do esperado para a época. Comparativamente, no inverno de 2024/2025, foram contabilizados 1328 óbitos em excesso.
O quadro é sombrio, mas não originou grandes negócios. Mesmo após mais de uma semana de calor intenso - observaram-se temperaturas muito acima da média, com distritos como Santarém e Beja a atingirem picos de 42º, e as noites receberam o epíteto de tropicais -, e num estio que se perspetiva particularmente quente, não se verificaram multidões a correr às lojas para adquirir aparelhos que minimizassem a canícula.
Isso sucedeu por estes dias em França, onde as habitações estão bem preparadas para o frio e nada para o calor. Esse movimento exaltado até poderia ter lugar em terras lusas, onde quatro em cada cinco casas não estão equipadas com ar condicionado. Seja porque o IVA dos aparelhos tem agora um custo 17 pontos percentuais acima do praticado até 1 de julho de 2025 ou porque os portugueses têm mais onde gastar o salário não se verificaram corridas ao ar condicionado.
Ao DN, a Worten diz que registou uma subida nas vendas de aparelhos de ar condicionado no último mês e, com especial incidência, desde 26 de junho, dia que marcou a chegada de uma forte vaga de calor ao território nacional. A sexta onda só este ano. “As vendas de junho foram bastante positivas, no entanto, não nos podemos esquecer que o histórico reflete a alteração do IVA de 6% para 23% no dia 1 de Julho de 2025”, diz fonte oficial da retalhista do grupo Sonae.
Era “expectável um aumento das vendas em junho, face aos meses anteriores,“ até porque esta é uma categoria sazonal, recorda a Worten. Segundo a mesma fonte, na semana de 26 de junho, “houve uma evolução positiva” no negócio destes equipamentos face às anteriores. “No entanto, comparativamente a 2025, os valores do histórico foram ligeiramente superiores devido à questão do IVA”, sublinha, sem revelar dados estatísticos. Nas lojas desta insígnia, os produtos mais procurados são os ares condicionados portáteis.
No El Corte Inglés, a procura por máquinas climatizadoras também acelerou nestas últimas semanas. “Verificámos um reforço da procura por equipamentos de climatização e de conforto térmico, acompanhando as temperaturas elevadas registadas nas últimas semanas”, diz fonte oficial do grupo. Sem entrar em detalhes de vendas e variações, adianta que, de um modo geral, confirmou-se na última onda de calor “um aumento da procura relativamente ao período homólogo, sobretudo nos dias de temperaturas mais elevadas”. Nestes grandes armazéns, os equipamentos de ar condicionado portátil, ventoinhas e climatizadores continuam a estar entre os produtos mais procurados pelos clientes, pela facilidade de instalação e pela capacidade de responder rapidamente às necessidades de conforto”, refere a mesma fonte.
No Kuanto Kusta, comparador de preços e marketplace, “desde que as temperaturas subiram, os acessos ao comparador para equipamentos de arrefecimento aceleraram claramente”, diz Rita Faria, diretora geral. Nas últimas semanas, já com o calor a apertar, “os acessos ao comparador cresceram entre 17% e 25% conforme a categoria, e as encomendas no marketplace mais do que duplicaram face ao período homólogo”, revela. Segundo Rita Faria, “o interesse no comparador está efetivamente a converter-se em compra - o consumidor não está só a pesquisar preços, está a comprar”.
Os retalhistas têm uma oferta diversificada de soluções de climatização e ventilação, desde opções de entrada de gama até modelos com funcionalidades mais avançadas, com preços a acompanhar a qualidade e eficiência do aparelho. Certo é que os dados conhecidos apontam que a climatização de uma casa deixou de ser um luxo e tornou-se quase um bem essencial, num país com uma população muito envelhecida e, por isso, frágil aos desconfortos térmicos do verão e do inverno.