Carmo Wood ganha força na construção em madeira com separação das áreas de negócio

Divisão de engenharia é já motor de crescimento do grupo. Nova estratégia, que passa por obras de maior complexidade e ticket médio mais elevado, quer garantir metade das vendas no exterior.
A Carmo Form tem construído vários restaurantes de luxo. Na imagem, oJnCQUOI, na Comporta. Uma das mais valias da empresa é a rapidez na execução dos projetos.
A Carmo Form tem construído vários restaurantes de luxo. Na imagem, oJnCQUOI, na Comporta. Uma das mais valias da empresa é a rapidez na execução dos projetos.Foto: D.R.
Publicado a

O negócio de engenharia e construção em madeira transformou-se num dos motores de crescimento do grupo Carmo Wood. Este objetivo, traçado quando o fundador Jorge Milne e Carmo decidiu alienar há cerca de dois anos 60% da empresa (40% a Diogo Champalimaud Lino e 20% à Iberis Capital) materializou-se no último exercício fiscal, quando esta atividade foi responsável por vendas de 40 milhões de euros, o mesmo valor gerado pela área da agricultura do grupo. Como salienta o presidente executivo, João Figueiredo, “os 80 milhões de euros faturados pela Carmo Wood em 2025 dividem-se 50/50 pelos dois negócios”. Em 2024, sublinha, “a agricultura pesava 65%”. Chegou o momento de reforçar a internacionalização.

A aposta na área da engenharia e construção em madeira - divisão responsável por obras de referência como os Passadiços do Paiva, em Arouca, Caminito del Rey, em Espanha, ou o restaurante JncQUOI, na Comporta, entre outras -, conduziu também a alterações na designação dos negócios. Com João Figueiredo ao leme, este departamento assumiu a designação de Carmo Form. A área de agricultura, sob liderança de Ricardo Diz, passou a chamar-se Carmo Farm. O rebranding foi apresentado há cerca de um ano, mas foi agora, “em 2026, que nascemos como uma nova entidade”, explica. Para João Figueiredo, o grupo “não podia apresentar-se como um marketplace. Não podia estar a anunciar vedações e postes agrícolas e, em simultâneo, obras de engenharia”. Esta divisão criou “duas administrações sob alçada dos mesmos acionistas”, frisa.

Separadas as águas, a Carmo Form desenhou uma nova estratégia: elevar o ticket médio das obras; aumentar a complexidade das construções; e, por último, assumir uma posição de empreiteiro. A força deste plano da empresa instalada em Oliveira de Frades assenta no gabinete de engenharia e desenho, onde trabalham mais de 30 profissionais em cálculo e projeto. Segundo João Figueiredo, a Carmo Form trabalhava cerca de 300 obras por ano e, agora, não quer ultrapassar as 50. Também passou só a executar projetos acima dos 200 mil euros. São encomendas mais premium e de maior complexidade, o que levou a empresa a assumir a responsabilidade total da obra. Como esclarece, “nós tradicionalmente trabalhávamos em regime de subcontratação. Agora somos o empreiteiro geral”.

João Figueiredo, CEO da Carmo Form, está a organizar uma conferência sobre construção em altura de edifícios de madeira. Vai trazer a Lisboa vários especialistas para desconstruir preconceitos.
João Figueiredo, CEO da Carmo Form, está a organizar uma conferência sobre construção em altura de edifícios de madeira. Vai trazer a Lisboa vários especialistas para desconstruir preconceitos. Foto: D.R.

Este novo desenho do negócio assenta numa política de investimentos direcionada para a industrialização da construção em madeira e para o cliente. A empresa investiu dois milhões de euros na robotização da produção de componentes/módulos em fábrica. Está a introduzir o BIM (Building Information Modeling), método digital que cria representações de edifícios com detalhes sobre materiais, custos, prazos, entre outros, e também a potenciar o CRM com Inteligência Artificial. Como sublinha João Figueiredo, o foco está na construção off-site e modular, isto é, toda a estrutura (habitação, passadiço, edifício) é produzida em fábrica e depois montada no local. E no crescimento das vendas nos mercados externos. No ano passado, valeram 20% e, no atual exercício, deverão pesar mais de 30%, com especial contributo de Espanha. O objetivo é garantir metade da faturação além fronteiras num prazo de três anos.

Capacidade e velocidade

A Carmo Form “tem a valência técnica, a capacidade industrial e a velocidade” para responder aos mercados nacional e internacional, diz João Figueiredo. “Uma das grandes vantagens é a rapidez de construção. Não é o preço, não é a sustentabilidade do material. A velocidade é a grande valia”, sublinha o responsável. Exemplos? A nova residência de estudantes em Coimbra, que demorou nove meses a ser erigida, ou o lar de idosos em Arcozelo, executado em sete meses. Na sua opinião, “o mercado falha na análise de todos os custos da atividade da construção. O prazo de obra não é contemplado. Falta medir o custo do tempo.”

Uma das grandes vantagens da construção modular é a velocidade de execução.
Uma das grandes vantagens da construção modular é a velocidade de execução.Foto: D.R.

A Carmo Form está agora a terminar as 50 casas de madeira do aldeamento turístico que integra o projeto Surf Park de Óbidos, o primeiro em Portugal com piscina de ondas artificiais para a prática deste desporto. Concluiu recentemente as 43 vilas do hotel de luxo Sublime Comporta e está envolvida na construção do hotel Na Praia, “uma referência de arquitetura e hotelaria de alto luxo em Portugal”, frisa João Figueiredo. Em Espanha, ganhou há poucas semanas a adjudicação de quatro obras: execução de estruturas em madeira para a Casa Palacio de los Vargas, em Madrid; sistema de passadiços e de estruturas em Mazagón, Huelva; ponte pedonal em Zamudio, no País Basco; e uma escadaria em Salamanca. Em carteira, estão ainda obras e encomendas para os EUA, Senegal, Roménia, Arménia e Ruanda. A empresa está também a negociar “cinco grandes projetos no exterior, que vão ter 90% de construção industrializada”, adianta.

“Também queremos ser parte da solução da crise de habitação”, sublinha João Figueiredo. A Carmo Form tem três soluções residenciais, com preços desde os 1800 euros por metro quadrado, que garante prontas a habitar em menos de um ano. No ano passado, venderam quatro unidades. Segundo o gestor, “é preciso educar o mercado” para a construção em madeira e para o off-site. E o mesmo sucede na construção em altura com recurso à madeira. Este é um tema caro a João Figueiredo, que está a preparar um evento a realizar em Lisboa e Madrid, em outubro, para desconstruir receios e eliminar preconceitos.

As obras são projetadas com o auxílio de ferramentas digitais.
As obras são projetadas com o auxílio de ferramentas digitais.Foto: D.R.

Na conferência “The wood giants are coming” (em português, “Os gigantes de madeira estão a chegar”), são esperados oradores como o britânico Andrew Lawrence, engenheiro especialista em edifícios em altura em madeira, o neerlandês Pablo van der Lugt, que falará das várias vertentes do negócio, ou o norueguês Rune Abrahamsen, que irá apresentar o Mjostarnet, o edifício mais alto do mundo em madeira, entre outros. Segundo João Figueiredo, a Carmo Form quer reunir na plateia arquitetos, engenheiros, banca e empresas de fiscalização para demonstrar as potencialidades desta matéria prima e esclarecer dúvidas. É um investimento da ordem dos 120 mil euros, valor que costumava ser canalizado para promoção da empresa em feiras internacionais. “Deixámos de fazer feiras de construção, porque achamos que são altamente improdutivas. Decidimos juntar esse dinheiro e criar este evento”, justifica.

Para este ano, a Carmo Form prevê manter a faturação na casa dos 40 milhões de euros. O ano “já está todo contratado” e “assumimos uma estratégia de cimentar processos, dar estabilidade às equipas e trabalhar apenas projetos de qualidade”, explica João Figueiredo. O exercício de 2025 “foi muito difícil em termos de rentabilidade, depois de anos muito bons. Arriscamos a fazer obras para as quais não tínhamos muita experiência. Foi exigente, mas já sabíamos”. Mas 2026 está a ser muito positivo”.

A Carmo Form tem construído vários restaurantes de luxo. Na imagem, oJnCQUOI, na Comporta. Uma das mais valias da empresa é a rapidez na execução dos projetos.
Carmo Wood quer ser parte da solução da crise de habitação
image-fallback
Carmo Wood. Das cinzas de outubro se faz novo e em madeira
Diário de Notícias
www.dn.pt