

O consórcio português liderado pela Controlar e Graphenest arrancou com o projeto Astral para desenvolver pela primeira vez na Europa tecnologia de dissimulação (stealth) que torna os equipamentos menos detetáveis, com financiamento de 1,86 milhões de euros.
O uso da tecnologia é dual, pelo que pode ser usado tanto para o setor civil, como para a defesa, explicaram à Lusa os responsáveis das duas empresas, adiantando que há a possibilidade de a Força Aérea Portuguesa participar nos ensaios finais do projeto.
"É um projeto a três anos", disse João Queirós, diretor de inovação da Controlar. Iniciou-se a 01 de junho e termina em 2029.
O co-presidente executivo (CEO) da Graphenest, que também lidera o projeto e é a única produtora de grafeno em Portugal, disse esperar que este projeto seja "uma referência nacional e europeia".
O consórcio conta ainda com mais duas entidades portuguesas - PIEP (Pólo de Inovação em Engenharia de Polímeros) e Universidade de Aveiro - e tem o objetivo de criar um material que existe maioritariamente nos EUA e cujas fórmulas são mantidas sob segredo industrial.
Com um investimento de 1,86 milhões de euros financiado pelo Portugal 2030, o Astral está alinhado com a Estratégia Europeia para a autonomia tecnológica, num momento em que a Europa está a tentar diminuir a dependência e fornecedores externos em setores críticos como a defesa, a mobilidade autónoma e as telecomunicações para assegurar a sua soberania digital.
De acordo com João Queirós, o objetivo "é o revestimento de câmaras anecóicas".
Uma câmara anecóica é uma sala isolada e revestida com material absorvente, usada para testar equipamentos que emitem ou recebem ondas eletromagnéticas, como radares ou antenas. O objetivo é eliminar reflexos, à semelhança de um estúdio de gravação à prova de eco, mas em vez de absorver som, absorve ondas de rádio e radar, garantindo que os testes medem apenas o sinal do equipamento, sem interferências das paredes.
"Começaremos no setor civil, com a Controlar, aplicando isto nas câmaras anecóicas. Se formos bem sucedidos podemos transpor para a área de defesa", acrescentou o co-CEO da Graphenest Bruno Figueiredo.
O objetivo do Astral é desenvolver um material multicamada ultrafino e flexível, baseado em grafeno e em partículas magnéticas, capaz de absorver radiação eletromagnética em toda a gama de frequências usada pela indústria moderna, desde os radares automóveis até à comunicação 5G e aos sistemas militares.
Na prática, "visa substituir as espumas piramidais volumosas que revestem as câmaras anecóicas" por uma solução em filme flexível de menor espessura, adaptável a qualquer superfície, com absorção em banda larga entre os 2 e os 110 GHz, sendo esta uma solução que não existe na Europa neste formato, explicou João Queirós.
O mercado global destes materiais foi avaliado em 828 milhões de dólares em 2025, com crescimento previsto para 1,1 mil milhões em 2034. O mercado de câmaras anecóicas deverá atingir 2,3 mil milhões de dólares até 2030.
Este projeto pode ser aplicado à indústria automóvel, respondendo à crescente necessidade de testar e calibrar radares ADAS (os sistemas de condução autónoma que operam a 77 GHz), nas telecomunicações e na indústria de aeroespaço e defesa.
Ao todo são "cerca de 25 a 30" pessoas envolvidas no projeto.
"Queremos posicionar-nos como um fornecedor de tecnologia com marca europeia", a qual também pode "vir a diminuir a dependência de outros países, nomeadamente dos EUA, da China, seria para nós muito bom", sublinhou Bruno Figueiredo.
Como empresa "seremos em parte tomadores desta tecnologia na questão da preparação do material para depois ser usado na preparação do filme, queremos que o nosso grafeno possa ser transversalmente usado na preparação doutras componentes para blindagem eletromagnética", disse o responsável da Graphenest.
"Temos aqui a oportunidade de vir a testar isto com a Força Aérea portuguesa", rematou.