A democracia venceu, por agora - para os menos otimistas -, mas o caminho no regresso à normalidade parece ainda ser longínquo.
A invasão orquestrada, no passado dia 8 de janeiro, não mais pareceu do que um déjà-vu do acontecimento ocorrido em Washington, no Capitólio, no início do último ano. O mundo assistiu inquieto ao desenrolar dos acontecimentos, contemplando um cenário de incerteza e insegurança, diante de um contexto cada vez mais polarizado. O Brasil, intitulado da maior democracia da América Latina, foi o mais recente refém.
E, alguns dias após o país esforça-se para retomar a uma falsa liberdade. Falsa porque o cenário político brasileiro já há muito que está fragilizado. A invasão à sede dos três poderes que culminou com mais de 1000 detenções, foi a cereja no topo do bolo para demonstrar um país polarizado que vem sendo desenhado desde o impeachment da então presidente, Dilma Rousseff em 2015, intensificado com as eleições de 2018.
Contrariando este cenário, o Brasil dá a sensação de caminhar em direção a um cenário de união, nem que seja temporário. Na passada segunda-feira (9), o presidente, democraticamente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, reuniu-se com os governadores e representantes das 27 unidades federativas do país, ministros do Supremo Tribunal Federal, o Procurador-Geral da República, Augusto Aras e outros membros do executivo para tratar dos atos terroristas. Lula com um discurso enfático procurou defender a democracia e repudiar, de forma firme, os ataques. Numa reunião, também apoiantes do ex-presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, o objetivo era claro: unir e pacificar um país em absoluta polarização e intolerância.
Após a reunião, todos caminharam, num único compasso, em direção ao Supremo Tribunal Federal, numa imagem que além de histórica era, acima de tudo, necessária. A luta pela democracia que, segundo o atual presidente no seu discurso no Palácio do Planalto, não escapará das mãos dos brasileiros, deve ser ampla e envolver todos os atores políticos do país. Além disso, torna-se cada vez mais fulcral que os diferentes líderes mundiais dos mais diversos espectros políticos se envolvem na discussão e condenem, de forma unânime esses atos criminosos.
Tão importante como essa condenação é a investigação em torno dos acontecimentos. A punição de todos os envolvidos deve ser firme e educativa. Houve um planeamento extremamente cauteloso dos ataques decorridos e um misterioso financiamento para as estruturas de acampamento e transporte. A par das detenções e prisões, o ex-secretário da segurança pública do Distrito Federal (e ex-ministro bolsonarista), Anderson Torres, já foi exonerado do cargo, com pena de prisão decretada, diante das omissões consideradas dolosas pelo Ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes.
Existe, porém, lacunas na lei brasileira capazes de travar o enquadramento dos bolsonaristas envolvidos nesses atos criminosos como terroristas, o que seria por tudo e em tudo simbólico e necessário. Além disso, Lula foi eleito com uma diferença pouco significativa de votos e o anti-petismo ainda é forte no Brasil. Paralelamente, na noite do dia 10 de janeiro, Bolsonaro compartilhou nas suas redes sociais um vídeo questionando a vitória de Lula, com o governo a detetar uma nova ameaça de protestos, organizada pelos extremistas de todo o país.
No entanto, o Senado Federal aprovou o decreto presidencial que culminou com a intervenção federal na segurança pública do Distrito Federal. Com esta medida que já havia sido aprovada pela Câmara dos Deputados, a União assume o comando da segurança pública em Brasília, substituindo o governo local, até 31 de janeiro, o que indica uma reação mais enérgica relativamente à assistida outrora.
Os holofotes do mundo estão, sem dúvida, direcionados para o palco brasileiro, nos próximos dias. Prevêem-se dias duros para as autoridades brasileiras, na luta para a manutenção da democracia que, certamente encontrará resistência por parte da população, ainda que de uma minoria extremista. De acordo com o Instituto Datafolha, 93% dos brasileiros condenam os ataques do dia 8 de janeiro. Esta divisão territorial que ultrapassa a dicotomia "direita-esquerda" deve ser olhada com extremo cuidado e ser merecedora de ações firmes.
Ricardo Ferreira, Portugal Green Mail