O funding 'gap' não se resolve com prémios. Resolve-se com acesso

Carolina Almeida Cruz

Cofundadora e CEO da C-MORE

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Há uma aprendizagem inevitável para quem empreende: construir um negócio é, simultaneamente, um desafio de execução e uma das mais exigentes jornadas de autoconhecimento. O caminho raramente é linear. Todos os dias trazem novos obstáculos, dúvidas e decisões difíceis. E, muitas vezes, a verdadeira medida do progresso não está apenas nos resultados alcançados, mas na capacidade de recuperar rapidamente dos fracassos e seguir em frente.

O mesmo acontece quando chega o momento de levantar capital. A rejeição deixa de ser um episódio ocasional para passar a fazer parte do processo. É quase uma disciplina. Cada "não" testa a convicção, a capacidade de adaptação e a persistência da fundadora. Talvez por isso faça tanto sentido a ideia, dura, mas verdadeira, de que uma fundadora tem de aprender a absorver os golpes sem nunca perder a determinação de continuar a construir.

Depois de levantar 1,5 milhões de euros junto do mesmo investidor — e com o privilégio de continuar a contar com esse parceiro nesta caminhada — inicia-se agora um novo ciclo. Um ciclo em que já não basta provar a visão: é preciso demonstrar capacidade de execução, escala, consistência e ambição internacional. É precisamente nesta fase que iniciativas como o UBS Project Female Founder ganham especial relevância.

Muito mais do que um prémio

Há cerca de um ano, a candidatura ao programa do UBS nasceu com uma expectativa simples: aprender com quem já conhece por dentro o processo de preparar empresas para crescimento e investimento. O UBS Project Female Founder é um programa global, gratuito e sem tomada de participação, desenhado para fundadoras em fase inicial que procuram preparar-se para rondas profissionais de investimento, com uma estrutura que combina um acelerador intensivo de oito semanas com uma fase de ativação e acompanhamento ao longo de um ano.

O desenho do programa ajuda a perceber a sua relevância. As participantes têm acesso a formação orientada para investor readiness, sessões semanais online, prática de pitch, mentoria e uma rede global que envolve mais de 100 mentores de venture capital e investidores, bem como dezenas de mentores da UBS em mais de 25 países.

A participação é aberta a empresas para além da fase de ideia, com produto em desenvolvimento ou já no mercado, maioritariamente detidas e lideradas por mulheres, e que tenham levantado até 1 milhão de dólares e estejam a preparar capital profissional de early stage a series A.

Mais importante do que o reconhecimento formal foi perceber o significado estrutural desta seleção. Ser a única portuguesa, à data, e uma das poucas representantes europeias num contexto tão competitivo não deve ser lido apenas como um marco individual. É também a prova de que Portugal tem talento, capacidade de execução e visão para competir ao mais alto nível, mesmo partindo, muitas vezes, de um ecossistema com menos capital, menor dimensão e menos instrumentos de apoio do que outros mercados.

O que estes programas realmente oferecem

A narrativa pública sobre programas para fundadoras tende, por vezes, a reduzir o seu valor a visibilidade. Esse é um erro. O verdadeiro impacto, acredito, está em três dimensões menos óbvias.

A primeira é a qualidade da exposição. Não se trata apenas de conhecer pessoas; trata-se de estar no contexto certo, com linguagem certa, perante investidores, advisors e pares que compreendem as decisões que uma empresa em crescimento tem de tomar. O acesso a uma comunidade internacional, com especialistas em captação de capital e aceleração, encurta anos de aprendizagem dispersa.

A segunda é a disciplina estratégica. Um programa com foco em investor readiness obriga fundadoras a afinar narrativa, métricas, posicionamento, go-to-market e capacidade de responder a objeções de forma clara. Isso não melhora apenas o pitch; melhora a empresa.

A terceira é a legitimidade relacional. Em mercados onde a confiança abre portas antes de qualquer outra diligência, pertencer a uma comunidade destas envia um sinal importante: esta empresa foi considerada relevante, investível e promissora por uma instituição global com capacidade real de filtrar talento e potencial.

Porque é que isto continua a ser tão necessário

Esta conversa não pode ser separada do contexto mais amplo do financiamento a fundadoras. Apesar de haver sinais positivos em alguns indicadores agregados, o desequilíbrio estrutural

permanece. Em 2025, equipas exclusivamente femininas receberam apenas 2,3% do capital de venture capital, um número que se manteve praticamente inalterado ao longo da última década.

Mesmo quando os números globais parecem melhorar, a leitura detalhada revela concentração extrema. Em 2025, startups com pelo menos uma fundadora captaram 24% do capital total, mas esse valor foi fortemente influenciado por um pequeno número de grandes operações; ao mesmo tempo, as equipas exclusivamente femininas continuaram a representar apenas 2% do capital total e 8% dos negócios.

Isto significa que programas como o UBS Project Female Founder não são acessórios nem gestos simbólicos. São mecanismos concretos de correção de assimetrias de acesso: à linguagem do capital, às redes certas, à preparação estratégica e à visibilidade internacional.[2][1]

O que Portugal deve retirar daqui

Portugal tem um problema e uma oportunidade. O problema é continuar a subestimar a ambição das suas fundadoras e a escassez de plataformas que as projetem internacionalmente. A oportunidade é perceber que, quando uma fundadora portuguesa entra num programa desta natureza, não leva apenas a sua empresa; leva um ecossistema inteiro para a conversa.

É por isso que esta experiência merece ser contada não como celebração individual, mas como convite coletivo. Precisamos de mais fundadoras portuguesas a candidatar-se, mais investidores a olhar para talento feminino como oportunidade e não como exceção, e mais instituições a criarem pontes reais entre mérito e acesso.

Se há traço que define Portugal, talvez seja mesmo essa elasticidade singular: a capacidade de fazer muito com pouco, de avançar mesmo sem todas as fundações montadas, de transformar restrição em engenho. Quando essa elasticidade encontra programas com escala global, mentoria séria e acesso qualificado, o efeito pode ser transformador.

Uma aprendizagem que fica

A maior conquista de uma experiência destas talvez não seja um troféu. É outra coisa: a confirmação de que construir uma empresa não tem de ser um exercício solitário até ao fim. Quando surgem espaços onde ambição, exigência, preparação e comunidade se cruzam, as

fundadoras ganham algo mais valioso do que visibilidade momentânea -ganham contexto para crescer melhor.

Num momento em que tantas empresas lideradas por mulheres continuam a ser avaliadas de forma desigual pelo mercado, criar e ampliar estas oportunidades não é apenas desejável. É economicamente inteligente, socialmente relevante e estrategicamente urgente.

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