O retalho sofre. Há uma "cura" digital?

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A imagem das prateleiras dos supermercados vazias que temos visto ultimamente traz-nos à memória a realidade de há dois anos, quando era praticamente impossível encontrar papel higiénico disponível devido ao pânico causado pelo início da pandemia de covid-19. Os consumidores raramente se importam se as lojas estão sem stock ou se os produtos que desejam comprar não estão disponíveis. Geralmente, a causa não tem relação aparente com a necessidade do cliente.

Mas, assim como o retalho deve entender os hábitos de compra dos consumidores para prever com a máxima precisão possível a procura, é igualmente importante adquirir produtos de fornecedores eficientes e com planos de contingência definidos em caso de interrupções inesperadas na cadeia de abastecimento.

O departamento de vendas do setor do retalho conta com uma dinâmica própria, o que o diferencia dos restantes setores que também adquirem bens e serviços diretos e indiretos. Isso apresenta aos profissionais de compra alguns desafios únicos. Em parte, é a mentalidade que existe nos escalões superiores da gestão do retalho, o que pode ser uma fonte de frustração para os profissionais de compras.

Os supermercados, em particular, são um negócio com um elevado volume e uma margem muito baixa. Quando os responsáveis de compras solicitam um investimento devem mostrar um retorno de investimento (ROI) atrativo. Os responsáveis podem entender completamente os benefícios que a automação de comprar traria em termos de melhor visibilidade sobre onde o dinheiro está a ser gasto, mas não têm o apoio necessário por parte da equipa de direção.

As cadeias de abastecimento formam uma estrutura complexa, que envolvem frequentemente contratos principais e vários subcontratados. As empresas devem ser capazes de monitorizar o risco e a qualidade de toda a cadeia, reportar aos auditores internos e demonstrar conformidade aos reguladores externos.

Antes de um bem de consumo chegar ao ponto de venda, ele já terá passado por vários níveis antes de estar pronto para ser enviado. Todos os fornecedores são desafiados a cumprir prazos; caso contrário, produz-se um efeito dominó que se estenderá pela restante cadeia de valor. Em alguns casos, isso causa uma rutura extrema ou um colapso total.

As entregas com demora de materiais ou componentes por parte de um fornecedor são uma das principais causas dos atrasos na produção, mas também o são as interrupções no local de trabalho, as avarias nas instalações e nas máquinas. Em alguns casos, os fornecedores podem até priorizar contratos mais rentáveis.

Os maiores riscos ocorrem quando um único fornecedor é responsável por um componente ou produto acabado. Portanto, é vital que os retalhistas garantam que têm visibilidade e tentem envolver vários fornecedores. Para muitos, é um processo muito dispendioso devido ao grande número de sistemas que utilizam nas suas operações (fidelização de clientes, e-commerce, pontos de venda, etc.), o que gera uma visão fragmentada das diferentes partes da cadeia de abastecimento. Para resolver este problema os dados devem ser consolidados num único repositório.

De acordo com a McKiknsey, o risco de interrupção aumentou à medida que as cadeias de abastecimento foram otimizadas para eficiência em vez de para a capacidade de recuperação. O impulso para a eficiência e a maior complexidade resultante aumentaram a vulnerabilidade face às interrupções.

Lacuna na experiência multicanal
Os efeitos da crise expuseram as lacunas na capacidade dos retalhistas de disponibilizar uma experiência de cliente multicanal, entre outras. O ciclo de compra deixou de ser linear e os retalhistas viram-se obrigados a reequilibrar as cadeias de abastecimento, que se tornaram fragmentadas.

A crise também acelerou outras tendências que já estavam em curso e que estão a afetar as compras, por exemplo, o aumento das compras online deu um novo impulso à personalização em massa.

Consequentemente, muitas organizações estão a ficar para trás quando se trata de comprar e negociar. O que é que isso representa para a transformação digital das compras no setor? Depende em grande parte da empresa individual e do seu nível de maturidade, da sua escala e o subsetor específico em que se insere.

É muito importante que os responsáveis de compras pensem nas necessidades únicas da empresa e do seu negócio em particular. É um erro tentar forçar coisas que não vão funcionar no seu ambiente e que não terão o apoio dos principais decisores.

É claro que, se observarmos os canais de compra na maioria das organizações do setor, iremos encontrar uma longa cauda de gastos, com a oportunidade realizar algumas tarefas básicas de otimização, como, por exemplo, comprar a partir de catálogos eletrónicos. E, numa segunda fase, centrar-se na melhoria das compras mais estratégicas.

Em suma, os responsáveis de compras do retalho devem escolher o seu próximo projeto de automação construindo um caso de negócio claro.

Carlos Tur, country manager da Jagger para Espanha e Portugal

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