O último bastião do Sonho Americano

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Este sábado é 19 de junho. O que vem mesmo a calhar para falarmos um pouco sobre o Texas. É feriado em todo o Estado. Celebra-se o Juneteenth, também conhecido por Dia da Liberdade ou da Libertação. Como o próprio nome indica, trata-se da fusão ente June (Junho) e Nineteenth (dezanove), pois foi nesta data que, em 1865, o Major-general Gordon Granger revogou as leis esclavagistas dos confederados para impor a emancipação dos escravos.

Cerca de vinte anos antes, já os texanos haviam abraçado outra causa, a da sua autonomia face ao governo centralista do México, a qual resultou na Texas Revolution (1835-1836) e consequente Declaração da Independência da República do Texas (1836). Esta autonomia, aliás, durou ainda nove anos, até finalmente o Texas requerer (de forma voluntária, portanto) a sua anexação enquanto o 28º Estado dos EUA, em 1845.

Liberdade e Independência. Duas palavras que convém recordar sempre que falamos do Lone Star State, também assim designado, pois o seu estatuto permitiu-lhe ser o único Estado cuja bandeira - azul, vermelha e branca, ostentando uma estrela solitária - se ergue à mesma altura que a bandeira nacional americana. E dizemos que convém recordar, justamente, para que não sejamos contagiados pelos lapsos de memória de Biden, aparentemente esquecido do peso histórico que o Texas representa, bem como da sua influência na própria cultura estadunidense no seu todo.

Comecemos, então, por avaliar isso mesmo, os EUA no seu todo. Em 2019, o impacto da economia americana era de 21.4 triliões de dólares (PIB), comparado com os 15.6 triliões da União Europeia e 14.2 triliões da China. Quanto ao Rendimento Nacional Bruto per capita era de 66 mil dólares, comparado com os 46 mil da UE e, já agora, 36 mil de Portugal.

Por outras palavras, a ainda maior potência económica do mundo apresenta, no seu conjunto, números esclarecedores. No entanto, ao examinarmos a produtividade por Estado, reparamos que somente quatro Estados contribuem com cerca de 35% do PIB total dos EUA. Nomeadamente, a Florida, com um PIB de 1 trilião de dólares, Nova Iorque, com 1.69 triliões e, claro está, o Texas, com 1.75 triliões, em segundo lugar; apenas superado pela Califórnia, com 3 triliões.

Mas a história não acaba aqui. Neste momento, cada vez mais se perspetiva que o Texas venha a superar a Califórnia nos próximos anos. E as razões são muitas.

Com efeito, vivemos num ambiente de exaustão relativamente à hegemonia do novo esquerdismo - ou, como talvez o designasse Lenine (se ainda por cá andasse) - a nova doença infantil do comunismo. Refiro-me à woke culture promovida por Hollywood e à cancel culture que pulula nas universidades, bem como aos conflitos sociais e assistencialismo generalizado que apenas reforçam a discriminação e pobreza que visam combater. Ora, a Califórnia, hoje, representa tudo isso, é a perfeita imagem do obsoleto. E escusado será dizer que o investimento tem horror ao obsoleto.

Para onde, então, este se tem deslocado? Para o Texas, precisamente. A Oracle mudou-se para Austin, onde Elon Musk está a recolocar a sua Tesla Gigafactory, assim como a Musk Foundation. Quanto à Hewlett Packard, escolheu Houston, onde a Google também está a construir novas instalações e centros de dados. Enquanto Dallas passou a sediar o CBRE Group, o maior grupo de investimento e mediação imobiliária comercial do mundo; além de acomodar os mais recentes escritórios da Sage Integration, empresa que garante a segurança informática de grande parte das companhias listadas no top 100 da Fortune.

Evidentemente, porém, não é de agora que o Texas se apresenta como um dos maiores centros financeiros e empresariais a nível mundial. Companhias como a ExxonMobil, a AT&T ou a distribuidora farmacêutica McKesson, já estavam sediadas em Dallas. Estamos a falar de uma cidade que já foi a maior do Texas e está habituada a coisas grandes, daí a expressão "Bigger than Dallas". Afinal de contas, só em termos desportivos, conta com a mais valiosa equipa do planeta. Somando um total de 5.5 biliões de dólares, os Dallas Cowboys (futebol americano) valem mais que as equipas do Benfica, F.C. Porto, Sporting e de toda a 1ª Liga Portuguesa junta.

No que respeita a Houston, trata-se de um centro financeiro e energético que rivaliza com Dallas. É o local escolhido por multinacionais da energia como a Phillips 66 e a Enterprise Products, além da Sysco Coporation, a maior distribuidora mundial de alimentos. É também a cidade que torce pelos Houston Rockets (basquetebol) e, claro, onde fica a NASA.

Quanto a Austin, capital do Estado, encontra-se lá sediada a Dell, multinacional de tecnologia e computadores. Além disso, acomoda uma série de sedes regionais, desde a Apple e Facebook ao eBay, Visa e General Motors. É também o berço da Whole Foods Market, a maior rede mundial de supermercados especializados em produtos biológicos. Efetivamente, Austin é hoje o Hub preferido das empresas mais inovadoras na área da alimentação - e não só - tendo lançado mais startups que qualquer outra cidade ou Estado. Atrai talento atrás de talento. Por fim, desde 2012, é onde podemos disfrutar do Circuito das Américas em Fórmula 1.

Em contraste com o woke Hollywood, e a woke culture californiana, que tudo faz para destruir o American Dream, no Texas é justamente onde este sonho encontra o seu último reduto. O preço das casas é mais baixo que na Califórnia, Nova Iorque, Boston ou Chicago. Tem uma excelente rede de educação, bem articulada com o mundo das empresas, além de um fundo soberano para investir nesta área, sem receios de parcerias com empresas privadas. E, claro, não tem imposto estatal. Mais business friendly que isto é quase impossível.

Ora, todas estas características têm dois pontos em comum. O primeiro é a Liberdade, o mesmo valor que se celebra a 19 de junho, no Juneteenth, e que o Texas está habituado a defender com unhas e dentes. Isto é, com o segundo valor que o define, a Independência. Contra qualquer poder absoluto ou excessivamente centralizado que ameace a "terra dos homens-livres", o Lone Star State responde com a sua autonomia, em tudo, na maneira de pensar, de decidir e, sobretudo, de defender os direitos e garantias dos texanos.

O resultado está à vista, o Texas entrou em 2021 como a 9ª economia do mundo. Só é pena que, uma vez mais, os empresários e investidores portugueses continuem sem aceder aos vistos de residência provisória, E1 e E2, para lá poderem ir e fazer uma perninha.

João A.B. da Silva, economista e investidor

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