O valor do trabalho na época da abundância cognitiva
Durante praticamente toda a história económica, o valor de um trabalhador esteve ligado à escassez daquilo que sabia fazer. Um escriba valia porque poucos sabiam escrever. Um advogado vale porque poucos dominam a lei o suficiente para a aplicar a um caso concreto. Um médico, porque poucos sabem interpretar um corpo doente. Esta equação de ‘conhecimento raro, valor elevado’ organizou milénios de divisão do trabalho. Mas começa a vacilar, não porque o conhecimento deixe de importar, mas porque se torna acessível a qualquer pessoa com acesso a um sistema.
Não é claro que isto elimine profissões. Houve exceções – telefonistas, datilógrafos, operadores de elevador – mas, historicamente, a maioria das tecnologias não eliminou profissões inteiras: redistribuiu o que dentro delas era valioso.
Uma tecnologia pode ser usada de duas formas fundamentalmente diferentes: para substituir tarefas que os humanos faziam (o que os economistas chamam efeito de deslocação) ou para criar novas tarefas, produtos e funções em que o trabalho humano continua a ser necessário (o efeito de restabelecimento ou reinstatement effect).
O resultado líquido sobre o emprego e salários não depende da tecnologia, em si. Depende de qual destes dois efeitos as empresas e as instituições escolhem privilegiar, por vezes por decisão deliberada, por vezes por pressão da concorrência, de incentivos fiscais ou do custo do capital, sem que ninguém a assuma conscientemente. Mas mesmo essas pressões não são neutras: resultam de regras e incentivos desenhados, em algum momento, por pessoas. Por trás de toda a escolha, há sempre uma vontade humana, coletiva e difusa, mas humana, que pode orientar-se pelo bem comum ou pela pura conveniência.
É por isso que o verdadeiro risco desta transformação não é tecnológico. É moral. O risco de reduzir a pessoa que trabalha a um conjunto de tarefas executáveis e, no dia em que essas tarefas se tornarem baratas de automatizar, concluir que a pessoa se tornou dispensável. Um advogado, um médico ou um professor não valem apenas pela quantidade de trabalho que produzem, mas pelo julgamento que exercem, pela responsabilidade que assumem, pela relação de confiança que estabelecem com quem serve. Isso não é uma tarefa entre outras.
Por isso, o tema é definir que instituições estamos dispostos a construir, ou a reconstruir, para decidir quem beneficia do que a Inteligência Artificial (IA) torna possível. A tecnologia abre um espaço de possibilidades, mas não escolhe sozinha qual delas se torna realidade.
Essa escolha continua a ser, como sempre foi, política, e implica decisões concretas: como se tributa o capital que a automação liberta; como se financia a formação ao longo da vida, em vez de a concentrar nos primeiros 20 anos de cada pessoa; como se redesenha a proteção social para quem já não terá uma carreira única; como se negoceia coletivamente em profissões que a tecnologia está a fragmentar. É por essa razão política – não por nostalgia – que vale a pena perguntar, no fim de contas, para que serve o trabalho.
Nada disto é motivo para temer a IA. É motivo para lhe dar um lugar justo: o de instrumento ao serviço do ser humano, mas nunca o de critério último do seu valor. As sociedades que souberem fazer esta distinção não vão apenas atravessar esta transformação com menos sofrimento. Vão redescobrir, talvez, algo que a pressa do progresso por vezes faz esquecer: que o trabalho não existe primeiro para produzir riqueza, e só depois, se sobrar, para dignificar quem o realiza. Existe, antes de mais, para que cada pessoa participe, com as mãos e com o pensamento, na obra comum de cuidar do mundo e dos outros.
Essa participação – como se aprende, como se ama e se conversa ou como se organiza a vida em comum – é a verdadeira agenda que esta época exige. E é a essa agenda, mais do que a qualquer fórmula ou algoritmo, que vale a pena continuar a voltar nos próximos meses.
