3000 euros ou a grande ilusão
Nesta quinta-feira, dia 20 de agosto, o DN fez manchete com uma notícia que chamou a atenção – e que devia ser manchete todos os dias, na verdade: “Salários acima de 3000 euros batem recorde e país nunca teve tantos políticos, chefes e gestores de topo.”
Os números – 125 mil pessoas que ganham 3000 euros ou mais, líquidos – foram anunciados com pompa pelo próprio primeiro-ministro, Luís Montenegro, que celebrou o feito durante a sua intervenção na Festa do Pontal, no fim de semana passado. Num país onde existem cerca de 5,37 milhões de trabalhadores, isto significa que aqueles 125 mil representam 2,3% do mercado de trabalho.
Dois vírgula três por cento das pessoas que, todos os dias, trabalham em Portugal, ganham 3000 euros ou mais por mês. Para efeitos de comparação, vamos ter em conta que na Dinamarca e na Noruega os salários médios líquidos se situam entre os 3000 e os 3800 euros, enquanto no Luxemburgo – cerca de 36 vezes mais pequeno que Portugal – se ganha entre os 3500 e os 4000 euros líquidos, em média.
Não sei, portanto, se temos motivos para grande celebração, caro leitor. Claro que nos alegramos por o número estar a subir – queremos que continue a subir, a disparar, de preferência –, mas devemos realmente ficar contentes por uma percentagem tão baixa de pessoas ganhar um salário que é, atualmente, bastante irrisório face ao custo de vida?
É que, se há uns anos havia a desculpa de que “em Portugal tudo é mais barato”, essa é uma justificação que claramente já não pode ser utilizada – se bem se recorda, também demos conta esta semana de que o nosso país é apontado como um dos exemplos europeus mais extremos da distância entre salários e rendas, por exemplo. Cálculos do Financial Times, com base em informação da Numbeo e do Deutsche Bank, davam conta de que um residente na capital portuguesa que receba o salário médio (esse ronda os 1300 euros) teria de gastar mais de 110% desse rendimento para arrendar um apartamento típico de um quarto no centro da cidade. No mesmo sentido, se olhar para os preços de um menu num restaurante em Madrid, Paris ou Copenhaga, talvez se surpreenda por verificar que, afinal, há algumas coisas em que Portugal gosta de acompanhar os seus congéneres.
Não sei, portanto, se temos motivos para grande celebração, caro leitor. Claro que nos alegramos por o número estar a subir – queremos que continue a subir, a disparar, de preferência – mas devemos realmente ficar contentes por uma percentagem tão baixa de pessoas ganhar um salário que é, atualmente, bastante irrisório face ao custo de vida?
Aliás, não raras vezes os estrangeiros que visitam Portugal perguntam como é que nós vivemos aqui com os nossos salários, uma vez que já não sentem que o país esteja tão mais barato do que outros congéneres europeus.
Já esta sexta-feira, o jornalista Luís Reis Ribeiro traz-lhe o resultado de um mergulho nas contas do Estado para nos revelar o seguinte: a execução orçamental de 2026 está dentro dos limites – boas notícias –, mas a viver de equilíbrios frágeis: menos receita fiscal, mais juros, investimento público atrasado... no fundo, o Orçamento parece estar controlado, mas porque o país está assim numa espécie de velocidade lenta a crescer apenas à boleia de impostos. Agradeçamos ao IVA e ao IUC, para começar.
Ora, numa altura em que tanto se fala de produtividade – lá voltamos nós a ter de olhar para o ‘pacotão’ laboral – talvez fosse importante voltar a reforçar algo que parece não ter solução: é difícil tornar um país produtivo com salários que não chegam para viver. E como, naturalmente, é difícil ter salários mais altos sem empresas que sejam produtivas – como tão bem explica o nosso colunista Carlos Brito, também nesta edição – talvez seja bom apressarmo-nos a perceber como é que o podemos fazer no curto prazo, sob pena de este castelo de cartas em que continuamos a insistir cair de vez, mais uma vez. Não será, certamente, por falta de capacidade que os trabalhadores portugueses não produzem mais – se assim fosse, não conseguiriam empregos onde, não raras vezes, se destacam fora de Portugal. E também não me parece que seja por falta de ideias – se assim fosse, muitos empreendedores portugueses não agarrariam nelas e fariam sucesso noutros países.
O que talvez possa ajudar bastante a esta falta de ação, que atravessa toda a sociedade, começando nos governantes e refletindo-se, inevitavelmente, na sociedade e no tecido empresarial, é uma clara falta de ambição: quando celebramos o facto de menos de 3% dos trabalhadores ganharem 3000 ou mais euros como se fosse um grande feito, estamos a dar um sinal muito claro sobre a visão que temos para o futuro. É que, por mais contas que façamos, há algo que parece muito claro, e as contas são simples de fazer: estes números não são, de todo, suficientes para ter uma economia sadia, sustentável e competitiva.
Quem se admira, portanto, que os nossos jovens queiram simplesmente ir-se embora, para outros lugares onde 3000 euros são um salário de início de carreira e as rendas não lhes comem todo o rendimento que conseguem auferir? Eu, não.
