A agenda não mente

Soledade Carvalho Duarte

Managing Partner da Invesco TRANSEARCH

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O regresso de férias traz sempre consigo o entusiasmo próprio dos recomeços. Setembro tem, para mim, qualquer coisa de início de um novo ciclo e é com essa sensação que olho para a agenda das semanas seguintes, numa mistura de expectativa e alguma apreensão. Há reuniões por marcar, assuntos que transitaram de julho, almoços prometidos, projetos que recomeçam e tudo aquilo que, antes das férias, decidimos deixar para setembro. Em poucos dias, os espaços em branco desaparecem.

Este ano, ocorreu-me olhar para a agenda de outra forma: não apenas como um instrumento de organização do tempo, mas como um retrato daquilo a que, na prática, estou a dar importância. E o retrato nem sempre corresponde àquele que gostaríamos que fosse.

Podemos dizer que queremos pensar mais estrategicamente e passar os dias em reuniões operacionais, afirmar que as pessoas são uma prioridade e adiar as conversas com a equipa, querer estar mais próximos dos clientes e ter semanas sem um encontro com nenhum deles, defender a importância de reservar tempo para pensar ou aprender e permitir que esses sejam sempre os primeiros espaços a desaparecer perante uma urgência.

Ao longo dos anos, tenho observado como gerir o tempo se torna mais difícil à medida que aumentam as responsabilidades. Quanto mais elevado é o cargo numa organização, mais solicitações parecem exigir atenção imediata e tomada de decisão, e maior é o risco de deixarmos que sejam os outros, ou as circunstâncias, a decidir como ocupamos o nosso tempo.

Uma agenda cheia pode transmitir uma sensação de produtividade, mas estar ocupado não significa estar focado no que é mais importante. Por vezes, significa precisamente o contrário. Podemos passar os dias a responder ao que é urgente e chegar ao fim de uma semana sem termos dedicado tempo suficiente ao que verdadeiramente consideramos prioritário.

Gerir uma agenda é, no fundo, fazer escolhas, e escolher implica renunciar. Aceitar uma reunião é decidir não utilizar aquela hora para outra coisa. Responder a todas as solicitações pode significar não deixar espaço para aquilo que ninguém nos pede, mas que sabemos ser importante. E há uma diferença, nem sempre confortável, entre as prioridades que enunciamos e aquelas que a nossa agenda revela.

Talvez setembro seja uma boa oportunidade para um exercício que também quero fazer: olhar para os próximos meses e perceber quanto tempo está efetivamente reservado para aquilo que considero essencial, para as pessoas a quem quero dar mais atenção, para os clientes e candidatos que quero ouvir, para pensar no futuro, para aprender e para preparar as decisões importantes.

Porque as nossas prioridades não são apenas aquilo que dizemos que são, são também aquelas a que dedicamos o nosso tempo.

Talvez por isso valha a pena olhar, de vez em quando, para a agenda como quem se olha ao espelho e perguntar: a vida que está aqui marcada corresponde à vida que digo querer viver e às prioridades que afirmo ter?

Não se trata de encontrar mais tempo, nem sequer de ter uma agenda menos preenchida; trata-se de perceber se a forma como estamos a ocupar os nossos dias traduz as escolhas que gostaríamos de estar a fazer.

Porque, sem darmos por isso, a agenda pode deixar de refletir o que é verdadeiramente importante para nós e passar a ser preenchida pelas solicitações dos outros, pelas urgências de cada dia e por compromissos que fomos aceitando quase sem questionar.

Talvez o verdadeiro desafio seja garantir que a agenda continua a refletir as nossas escolhas, em vez de acabar, silenciosamente, por fazê-las por nós.

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