A banca continua a ser simples. O problema é tudo o resto
Há uma tendência curiosa na banca: quanto mais complexa se torna por dentro, mais tenta convencer-nos de que é incompreensível por fora. Entre rácios, siglas, relatórios de supervisão e discursos herméticos, quase esquecemos o essencial. E o essencial é simples: os bancos continuam a ser o mecanismo central que transforma poupança em investimento. Recebem o dinheiro de uns, emprestam-no a outros. É isto que os torna indispensáveis à economia.
E há um privilégio que amplifica esse papel: os bancos não se limitam a intermediar dinheiro, criam-no, de forma escritural, quando concedem crédito. O mecanismo da reserva fracionária permite-lhes multiplicar cada euro depositado, podem emprestar outro tanto. Esta capacidade, que remonta ao final da Idade Média, é o que fez da banca o motor do crescimento económico moderno.
Mas quando olhamos para Portugal, percebemos que esta engrenagem está longe de funcionar no seu potencial. Os depósitos estão em máximos históricos, reflexo de anos de incerteza e de uma cultura de poupança defensiva. E, não por acaso, são remunerados a níveis muito baixos, frequentemente abaixo da inflação. Ou seja, os portugueses perdem poder de compra para financiar bancos que, por sua vez, mostram pouco apetite pelo risco.
A prova está nos números. O rácio crédito-depósitos do sistema bancário português situa-se hoje em torno dos 80%. Isto significa que, por cada euro captado, os bancos emprestam apenas cerca de 80 cêntimos. É um contraste profundo com o período anterior a 2014, quando este rácio ultrapassava regularmente os 120% e, nalguns anos, chegava mesmo aos 140%. Nessa altura, a banca portuguesa emprestava muito mais do que captava, recorrendo a financiamento externo para alimentar o crédito. Depois da crise financeira e da crise da dívida soberana, o pêndulo oscilou para o extremo oposto: excesso de liquidez, prudência elevada e um rácio que, em 2021, já se situava abaixo dos 85%. Hoje, a tendência mantém-se. Há dinheiro, mas falta vontade de o transformar em crédito produtivo.
É aqui que o Banco Português de Fomento, liderado pelo dinâmico Gonçalo Regalado, tem desempenhado um papel fundamental, empurrando o sistema financeiro para onde ele próprio não tem ido espontaneamente: o financiamento das empresas portuguesas. Sem este estímulo público, muitos projetos continuariam a morrer na praia. Mas seria ingénuo achar que o trabalho está feito. Está longe disso. Há ainda muito por fazer para que o crédito chegue de forma consistente e competitiva às empresas que realmente podem transformar o país.
E o problema agrava-se porque, num país onde o mercado de capitais continua subdesenvolvido, sem o apoio político, institucional e cultural necessário para se afirmar como alternativa ao financiamento bancário, a dependência da banca é total. Não há plano B. Não há válvula de escape. Não há ecossistema robusto de financiamento empresarial fora dos bancos. E isso torna ainda mais evidente a necessidade de uma banca que assuma o seu papel com responsabilidade e visão.
Entretanto, a tecnologia continua a reconfigurar o setor. Fintechs, plataformas digitais, Inteligência Artificial, pagamentos instantâneos, tudo isto muda a forma como os bancos operam e como os clientes se relacionam com eles. Mas não muda a essência. O negócio bancário continua a ser pedir emprestado por X e emprestar por Y. Da diferença entre X e Y vem o lucro. Todo o resto, inovação, compliance, marketing, apps, é acessório, embora necessário.
Tal como qualquer agente económico, os bancos respondem a incentivos. Se o risco é penalizado, evitam-no. Se as margens são confortáveis, acomodam-se. Se a concorrência aperta, mexem-se. Não há moralidade nisto; há racionalidade.
A questão é simples: queremos um sistema financeiro que se limite a gerir depósitos ou um sistema financeiro que financie o futuro do país. Se a resposta for a segunda, e deveria ser, então é preciso alinhar incentivos, reforçar mecanismos públicos de fomento e, sobretudo, criar condições para que o mercado de capitais finalmente floresça. Porque, enquanto isso não acontecer, continuaremos a ter depósitos gordos, crédito tímido e um país que cresce menos do que poderia.
