A Europa está envelhecida, mas não condenada
A Europa habituou-se a olhar para a sua crise demográfica como uma sentença inevitável: menos jovens, menos crescimento, menos inovação. A taxa de fertilidade da Zona Euro caiu para apenas 1,3 filhos por mulher em 2024, muito abaixo do nível de substituição geracional. Ao mesmo tempo, mais de um quarto da população europeia terá mais de 65 anos em 2035. O diagnóstico é conhecido. O fatalismo é que é perigoso.
Uma primeira reflexão, assenta sobre o mercado de trabalho. O envelhecimento não significa necessariamente menos capacidade produtiva. Significa, isso sim, que a Europa terá de prolongar e adaptar à vida ativa. A participação laboral tem aumentado de forma significativa, sobretudo entre trabalhadores mais velhos e mulheres. Segundo o BCE, a taxa de participação dos 55 aos 74 anos subiu de 40% para quase 45% entre 2019 e 2025. O modelo europeu terá de evoluir para carreiras mais flexíveis, requalificação contínua e integração dos seniores na economia. Viver mais tempo não pode significar apenas mais anos de reforma.
Numa segunda inferência, importa falar sobre produtividade. Uma Europa com menos população ativa só conseguirá manter crescimento se cada trabalhador produzir mais valor. O banco BNP Paribas, num estudo produzido em Maio (, alerta que o crescimento potencial europeu dependerá da recuperação da produtividade, impulsionada por inovação, inteligência artificial e automação. A diferença face aos Estados Unidos já não está apenas na dimensão do mercado, mas na velocidade da transformação tecnológica. O verdadeiro risco europeu não é envelhecer, mas sim envelhecer sem modernizar a economia.
Por fim, mas não menos importante, imigração e política familiar. A Europa precisará inevitavelmente de imigração qualificada para compensar o declínio demográfico. Mas imigração, por si só, não resolve tudo. Nenhuma sociedade estabiliza sem condições para formar família. Habitação inacessível, precariedade laboral e adiamento da autonomia financeira estão a destruir a natalidade europeia. Incentivar famílias não é conservadorismo cultural. Trata-se de sustentabilidade económica.
Portugal não ficará de fora destes desafios, afinal também somos um país envelhecido, com emigração jovem persistente e baixos salários. Precisamos de um equilíbrio que combata a erosão demográfica, mas que não assente apenas numa estratégia: atrair imigração integrada e qualificada importa, mas também importa criar condições para que os portugueses possam ficar, trabalhar e ter filhos. O inverno demográfico europeu não é inevitável. Mas exige coragem política para reformar trabalho, produtividade e política familiar ao mesmo tempo.
