A Europa não tem falta de dinheiro. Tem falta de cultura de capital

Luís Tavares Bravo

Economista. Presidente do International Affairs Network

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A Europa habituou-se a explicar o seu baixo crescimento através da falta de investimento. Mas o problema europeu não é a falta de dinheiro. Os europeus poupam, os bancos têm liquidez e existe riqueza acumulada. O problema é outro: somos muito melhores a guardar dinheiro do que a transformá-lo em capital para financiar novas empresas, inovação e crescimento.

Numa primeira reflexão, importa explicar que poupar não é o mesmo que investir. Durante décadas, a Europa construiu um modelo financeiro baseado na segurança. As famílias colocam as suas poupanças em depósitos, seguros, imobiliário e produtos conservadores. Não há nada de errado nisso. O problema surge quando uma economia inteira se torna excessivamente avessa ao risco. Sem investidores disponíveis para perder em alguns projetos, dificilmente existirão empresas capazes de multiplicar o investimento noutros. Os Estados Unidos compreenderam melhor esta relação entre risco e crescimento. A diferença entre as duas economias não está apenas na tecnologia ou nas universidades. Está também na capacidade de transformar uma ideia numa empresa, uma empresa numa multinacional e uma multinacional num novo mercado.

Depois, numa segunda inferência, há que salientar que a Europa tende a financiar o crescimento dos outros. A Europa precisa de enormes volumes de investimento em energia, defesa, Inteligência Artificial e digitalização. Ao mesmo tempo, uma parte relevante da poupança europeia procura oportunidades fora da Europa. O dinheiro europeu encontra mercados financeiros mais profundos e empresas com maior capacidade de crescimento noutros continentes. O resultado é uma espécie de círculo vicioso: poupamos na Europa, investimos no exterior e depois é natural que as que as maiores empresas tecnológicas europeias percam competitividade.

Por último, mas talvez mais importante, faz falta uma verdadeira cultura de capital de risco, na União Europeia, uma que permita criar empresas campeãs nos novos setores industriais globais. Atingimos a moeda única, mas continuamos sem um verdadeiro mercado único de capitais. Uma empresa portuguesa que queira crescer na Europa continua a enfrentar mercados fragmentados, diferentes regras e reduzida profundidade financeira. A União da Poupança e do Investimento pode, por isso, ser uma das reformas económicas mais importantes da próxima década. Mas só terá sucesso se aproximar verdadeiramente os cidadãos do investimento e criar condições para que o capital circule entre países, empresas e projetos.

Para Portugal, esta discussão é particularmente importante. Durante demasiado tempo, canalizámos grande parte do capital disponível para o imobiliário, depósitos e dívida pública, enquanto muitas empresas continuam pequenas e subcapitalizadas. Precisamos de aprender a transformar poupança em capital. Um país que apenas poupa protege o seu passado, precisamos que Portugal seja um país que saiba investir, para construir um futuro.

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