A Fed e a inflação que não controla
Dentro de poucos dias, a Reserva Federal (Fed) norte-americana volta a reunir para decidir o rumo da política monetária. O presidente da Fed, Kevin Warsh, enfrenta provavelmente uma das decisões mais complexas dos últimos anos. A inflação continua acima da meta de 2%, a economia norte-americana mantém um crescimento robusto e o mercado de trabalho permanece resiliente. Mas, ao mesmo tempo, a subida do petróleo, as tensões no Médio Oriente e a ameaça de novas tarifas voltaram a alimentar pressões sobre os preços. O debate já não é apenas saber se as taxas de juro devem descer ou permanecer inalteradas. É perceber se a política monetária continua a ser capaz de controlar uma inflação cuja origem mudou profundamente. Daqui decorrem algumas reflexões.
Uma primeira ideia, é que inflação já não é apenas um fenómeno monetário. Durante décadas, os bancos centrais combateram uma inflação gerada pelo excesso de procura, pelo crédito barato ou pelo dinamismo do mercado de trabalho. Hoje, uma parte crescente da inflação nasce fora da economia doméstica. O preço da energia, os conflitos geopolíticos, as tarifas comerciais, os estrangulamentos logísticos ou a reorganização das cadeias globais de abastecimento influenciam diretamente os preços. A Fed pode encarecer o crédito, mas não consegue aumentar a produção de petróleo, desbloquear rotas marítimas ou eliminar barreiras comerciais. Continuar a responder a estes choques apenas com taxas de juro é utilizar um instrumento concebido para um problema diferente.
Depois, os bancos centrais enfrentam hoje um delicado exercício de equilíbrio. A economia norte-americana continua a crescer perto de 2% ao ano, sustentada pelo investimento empresarial e pelo consumo privado. No entanto, esse crescimento convive com uma inflação persistente e com sinais de que os custos energéticos e as importações continuam a exercer pressão sobre os preços. Reduzir as taxas demasiado cedo pode reavivar a inflação; mantê-las elevadas durante demasiado tempo pode travar investimento, consumo e emprego. A margem de erro tornou-se extraordinariamente estreita.
Por último, mas não menos importante, a estabilidade económica já não depende apenas dos bancos centrais. Nos últimos anos, as economias desenvolvidas demonstraram uma capacidade de resistência muito superior ao esperado. Apesar das guerras, da crise energética, das tarifas e das perturbações nas cadeias de abastecimento, o crescimento manteve-se positivo. Essa resiliência explica-se cada vez menos pela política monetária e cada vez mais pelo investimento, pela adaptação das empresas, pela diversificação das cadeias de produção e pelas políticas industriais e energéticas. A estabilidade económica tornou-se uma responsabilidade partilhada entre bancos centrais e governos.
A próxima reunião da Fed será, por isso, importante não apenas pela decisão sobre as taxas de juro, mas pelo que simboliza. Durante décadas acreditámos que bastava aos bancos centrais subir ou descer os juros para estabilizar a economia. Hoje percebemos que esse paradigma pertence a um mundo mais simples. Numa economia marcada pela geopolítica, pela energia e pela fragmentação do comércio internacional, a política monetária continua a ser indispensável. Mas deixou de ser suficiente.
