A mão de Deus

Carlos Brito

Presidente da Ordem dos Economistas - Norte

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Há precisamente quarenta anos, no Mundial de 1986, Diego Maradona marcou aquele que ficaria para a história como um dos golos mais polémicos de sempre. Com a mão esquerda, num gesto que o árbitro não viu, bateu a Inglaterra e eternizou a expressão “A Mão de Deus”. O episódio é recordado não apenas pela infração, mas pela força da narrativa que o rodeia. Quatro décadas depois, o futebol continua a viver tanto de histórias como de resultados. 

O Campeonato do Mundo, que decorre nos Estados Unidos, Canadá e México, é um exemplo perfeito desta realidade. O futebol de alta competição não é apenas um desporto. É uma das maiores indústrias globais do entretenimento, capaz de mobilizar milhares de milhões de pessoas, gerar emoções coletivas à escala planetária e movimentar recursos financeiros de dimensão verdadeiramente astronómica. 

No desporto tout court, o objetivo é triunfar: vencer o adversário, bater recordes e até superar limites pessoais. No futebol de alta competição, porém, ganhar é apenas uma parte da equação – o outro objetivo é construir e valorizar marcas. Afinal, as vitórias passam, mas as marcas permanecem, gerando receitas, atraindo patrocinadores e alimentando a relação emocional com milhões de adeptos em todo o mundo. 

De que marcas estamos a falar? Desde logo, da marca FIFA, que encontra no Mundial a sua principal plataforma de afirmação global. Depois, das marcas pessoais dos jogadores, verdadeiros ativos mediáticos capazes de influenciar comportamentos de consumo, atrair patrocinadores e reforçar a notoriedade e reputação dos clubes onde atuam. Finalmente, das marcas dos sponsors que associam os seus produtos e serviços aos valores do espetáculo, da emoção, da excelência e da pertença. 

Para que isso aconteça, é essencial que por detrás do espetáculo exista um eficaz modelo de negócio. A proposta de valor é clara: oferecer experiências únicas, memoráveis e emocionalmente intensas antes, durante e após os jogos. O adepto não compra apenas um bilhete ou assiste a uma transmissão: compra emoção, identidade, expectativa, polémica e memória. 

É por isso que as receitas são astronómicas. As previstas para o ciclo comercial associado ao Mundial de 2026 deverão ultrapassar os 12 mil milhões de dólares, ou seja, o dobro daquilo que o Mundial do Catar gerou. Cerca de metade terá origem nos direitos de transmissão televisiva e digital. Os patrocínios representarão aproximadamente um terço e a bilheteira cerca de 12%. O restante virá do licenciamento e merchandising

Mas o impacto do Mundial não se esgota nas receitas diretas. O torneio funciona como um poderoso catalisador económico para os países anfitriões, estimulando investimentos em infraestruturas, turismo, hotelaria, restauração, transportes e comércio. Ao mesmo tempo, amplifica a visibilidade internacional de cidades e territórios, contribuindo para a sua projeção como destinos de investimento, de negócios e de lazer. Tal como acontece com as grandes marcas, também os países utilizam o Mundial como uma montra global para reforçar a sua reputação e atratividade. 

Estes números ajudam a compreender que estamos a falar de algo que vai muito para além do torneio desportivo. É uma gigantesca plataforma global de criação de valor económico e simbólico. Num mundo cada vez mais fragmentado e polarizado, poucos acontecimentos conseguem reunir tantas pessoas em torno de uma experiência comum. Basta dizer que a FIFA estima que mais de 5 mil milhões de pessoas em todo o mundo acompanhem o Mundial, devendo, só a final, ser vista por 1,5 mil milhões de espectadores. 

Com tudo isto, é claro que o Mundial é cada vez mais um fenómeno algorítmico. Cada golo, polémica ou momento de emoção gera milhões de interações que são amplificadas pelas redes sociais e plataformas digitais. Os algoritmos reconhecem o enorme interesse do público e promovem ainda mais esses conteúdos, transformando a paixão dos adeptos em atenção, tráfego e receitas publicitárias. 

Talvez seja essa a verdadeira lição da “Mão de Deus”. O futebol continua a ser jogado dentro das quatro linhas, mas o seu impacto ultrapassa largamente o relvado. Hoje, o Mundial não produz apenas golos, campeões e génios como Maradona. Hoje, o Mundial é, acima de tudo, uma poderosa máquina de gerar atenção. E, na economia contemporânea, poucos ativos valem tanto como a atenção de milhares de milhões de pessoas. 

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