A pergunta que a IA não pode responder por nós

Sandra Fazenda de Almeida

Diretora-geral da APDC

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Nos últimos anos, instalou-se um debate que, de tão repetido, começou a parecer o único possível: o que vai a Inteligência Artificial fazer aos humanos? Vai substituir empregos? Vai superar a inteligência humana? Vai concentrar poder em quem controla os modelos?

Se estas são perguntas legítimas, ficam todas do mesmo lado da equação e podem não ser o melhor ponto de partida. E talvez não sejam até as mais importantes. Quando a pergunta de partida é “o que vai a IA fazer?”, os humanos entram no debate como algo que vai ser transformado, afetado, substituído ou salvo.

Erik Brynjolfsson, diretor do Stanford Digital Economy Lab, propõe uma forma simples de olhar para o trabalho, considerando que quase tudo o que fazemos passa por três momentos: identificar o problema certo, executar a solução e avaliar se chegámos onde queríamos. A IA está a tornar-se extraordinariamente boa na fase do meio, a da execução. O que isso significa é que, economicamente, o valor se desloca. Quando a execução se torna abundante e barata, o que passa a escassear e a ter valor é a capacidade de fazer as perguntas certas e de julgar as respostas.

Esta é uma boa notícia, se a soubermos ler: não estamos a ser substituídos, estamos a ser desafiados a subir. O problema é que essa subida não é automática. Exige escolhas deliberadas sobre o que ensinamos, como lideramos, que competências valorizamos e que instituições construímos.

E é aqui que o debate ainda não chegou. Há agendas de IA para tudo: empresas, governos, regulação, segurança… O que não existe, pelo menos não com a seriedade que o momento exige, é uma reflexão coletiva sobre o que queremos ser, aprender e preservar, num mundo onde coexistem inteligências biológicas e artificiais. O que ainda não existe, com a clareza e a urgência que o momento pede, é uma agenda dos humanos. E os vazios, como se sabe, tendem a ser preenchidos por quem está disponível para o fazer.

Brynjolfsson chama-lhe a “Turing Trap”: a tentação de usar a IA apenas para imitar e substituir humanos, concentrando poder em poucos, enquanto a maioria perde voz e capacidade de decisão. É uma armadilha real e o antídoto não é tecnológico. É político, educativo e civilizacional. Depende de escolhas que as sociedades ainda não fizeram com clareza.

A Educação continua a preparar jovens para um mercado que já não existe da forma que conhecemos. As instituições democráticas debatem-se com velocidades de mudança para as quais não foram desenhadas. E a pergunta sobre o que é exclusivamente humano – o julgamento, o cuidado, a responsabilidade moral, a criatividade com propósito – continua a ser tratada como filosófica, quando é urgentemente prática.

Há uma janela de tempo. Mas não é infinita. As escolhas que fizermos agora vão definir o lugar dos humanos na próxima década. As que fazemos enquanto sociedade, na forma como distribuímos poder, responsabilidade e conhecimento.

A grande questão da era da inteligência pode não ser o que as máquinas conseguem fazer. Pode ser se os humanos terão a lucidez – e a coragem – de construir a sua própria agenda, antes que ela seja construída por outros.

O 36.º Congresso da APDC, a decorrer em maio de 2027, vai colocar exatamente esta questão no centro do debate: The Next Human Agenda. Não como tema tecnológico, mas como um tema humano, político e civilizacional. Porque a pergunta que mais importa fazer não é o que as máquinas conseguem fazer. É a do que os humanos escolhem tornar-se no novo futuro que estão a construir.

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