Ainda nos espantamos com o óbvio

Margarida Vaqueiro Lopes

Editora-Executiva do Diário de Notícias

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As manchetes têm-se sucedido nos últimos dias – inclusivamente no Dinheiro Vivo – e parecem espantar toda a gente: caos no aeroporto de Lisboa vai provocar problemas na restauração, nas agências de viagem e na hotelaria nacionais.

Um vídeo da correspondente internacional principal da CNN, Clarissa Ward, tornou-se viral esta semana, depois de a repórter de guerra ter filmado uma fila imensa de pessoas à espera para conseguir passar no controlo de passaportes do aeroporto de Lisboa, enquanto contava a sua própria experiência, nas redes sociais: esperou, perdeu o voo que ia apanhar, continuou à espera…

Confesso que me deixa sempre surpreendida esta capacidade que temos de nos espantarmos com algo que não é novo. Há mais de 50 anos que se fala num novo aeroporto e, na última década, apesar de o discurso se ter inflamado, o resultado foi exatamente o mesmo: zero. No entanto, o Turismo de Portugal, juntamente com associações do setor apostaram significativamente no aumento do turismo, a quem devemos grande parte do desenvolvimento económico a que o país assistiu desde o pico da crise financeira, em 2012.

Ora, não é possível ter mais turistas sem preparar para isso as estruturas que os recebem. Bem que podem aumentar o número de polícias, substituir sistemas, suspender temporariamente o controlo fronteiriço e escrever textos inflamados nos jornais: quando o espaço não estica, não há milagres.

Há uns meses escrevi nestas páginas algo parecido, sobre o aumento significativo do número de habitantes em território português nos últimos cinco anos: tal como acontece quando regamos uma planta, se formos colocando água em quantidades moderadas, a terra consegue absorvê-la; mas se decidirmos despejar um litro e meio de água para o vaso, não há muitas dúvidas de que a água vai transbordar.

No aeroporto – pasme-se! – não é diferente. Por muito que se tente fazer obras, alterar percursos ou regras, o que é certo é que não é possível, naquele espaço, acolher a quantidade de viajantes que as companhias aéreas querem, os hotéis e os restaurantes precisam (porque agora se dimensionaram para estes números recorde) e o país tem recebido. Simples assim.

Lisboa tem-se tornado motivo de chacota internacional porque o aeroporto parece, na verdade, um grande armazém onde nada faz sentido. Os passageiros que chegam e que partem cruzam-se nos mesmos corredores; as filas nos controlos fronteiriços são inenarráveis; os atrasos sucedem-se porque não há, sequer, forma, de garantir que todos os voos previstos saem a horas – é como se o trânsito do aeroporto se juntasse ao da 2.ª Circular, mas sempre em hora de ponta – e a experiência é, na larga maioria das vezes, pouco agradável.

Aliás, recentemente, até a zona do lounge da TAP esteve em obras, o que fez com que várias pessoas se espalhassem pelos corredores, encostadas a plásticos de proteção.

Tudo isto podia ser somente interpretado como falta de respeito pelos passageiros, que pagam cada vez taxas mais elevadas para viajar. Mas na verdade, creio que é até mais grave do que isso. É sintomático de uma cultura de descaso que se tem visto em vários serviços públicos, e que tem sido perpetuada por governantes ao longo das últimas décadas.

Seria fácil resolver a questão do aeroporto se houvesse vontade política para resolver um problema, ao invés de estarem à espera de quem ganha uma guerra de poder onde quem perde são sempre os mesmos: os consumidores e os contribuintes.

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