Análise de Mercado. Risco geopolítico e energia travam alívio monetário
As bolsas tiveram uma semana dissonante. Nos EUA, o índice tecnológico Nasdaq prolongou a forte trajetória recente, ao subir em 11 das últimas 12 semanas e superar os 30.000 pontos. Na Europa, os principais índices demonstraram maior dificuldade em sustentar ganhos. A semana ficou dividida entre dois sinais contraditórios. Por um lado, os dados económicos continuam a mostrar resiliência, sobretudo nos EUA. Por outro, a subida do petróleo e a deterioração geopolítica voltaram a alimentar dúvidas sobre inflação e juros.
Nos EUA, a indústria deu um sinal positivo. O índice industrial ISM subiu para 54,0 em maio, o valor mais elevado desde maio de 2022, acima das expectativas. A leitura reforça a ideia de que a economia americana continua a resistir à política monetária restritiva, mesmo após vários trimestres de juros elevados. Esta resistência tem sido bem recebida pelos mercados acionistas, sobretudo porque coincide com o entusiasmo em torno da Inteligência Artificial. A tecnologia continua a liderar os ganhos e a sustentar os índices. No entanto, isso também tem limitado a margem para cortes de juros pela Reserva Federal. Quanto mais resiliente for a economia, menor será a urgência para aliviar a política monetária.
Na Europa, o cenário é mais frágil. A inflação da Zona Euro acelerou para 3,2% em maio, acima dos 3,0% registados em abril, pressionada sobretudo pela energia e pelos serviços. Ao mesmo tempo, o PMI composto caiu para 48,5, sinalizando o segundo mês consecutivo de contração da atividade privada na UE. Esta combinação é desconfortável para o BCE. A economia europeia dá sinais de fraqueza, mas a inflação voltou a afastar-se da meta de 2%, o que deixa o banco central numa posição difícil: cortar juros pode suportar o crescimento, mas também arrisca alimentar novas pressões sobre os preços.
A geopolítica continua a ser o principal risco macro. A tensão no Médio Oriente está a afetar o mercado energético, com o Brent a manter-se próximo dos 98 dólares por barril. Assim, o pano de fundo dos mercados permanece construtivo, mas mais vulnerável. A Inteligência Artificial e os semicondutores continuam a sustentar as ações.
Porém, a combinação de petróleo mais caro, inflação persistente e bancos centrais mais cautelosos limita o potencial para valorizações mais amplas. Para já, os investidores continuam dispostos a assumir risco, mas essa confiança depende cada vez mais de um tema dominante que ainda não deu provas claras de retorno sobre o investimento: a Inteligência Artificial.
