Aprender a lição

Margarida Vaqueiro Lopes

Subdiretora do Diário de Notícias e diretora executiva do Dinheiro Vivo

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Emendar a mão é uma das capacidades mais desvalorizadas de qualquer líder, ainda que seja dos assuntos mais falados em qualquer curso de liderança ou gestão. As decisões tomadas são sempre feitas tendo em conta o contexto e as variáveis conhecidas até ao momento, mas o fascinante dos negócios – das empresas, dos países e até das famílias – é que essas variáveis são, como o próprio nome indica, dinâmicas. Vão-se alterando no espaço e no tempo e, não raras vezes, até pela própria existência de líderes diferentes.

Esta semana, os EUA deram um sinal claro ao presidente Donald Trump: os eleitores não estão a apreciar os resultados da sua Presidência. Não é difícil perceber porquê. É, na verdade, bastante simples: a carteira está cada vez mais vazia, o mês cada vez mais comprido, a vida cada vez mais difícil. Ou, como escreveu Kin Hubbard num dos seus famosos cartoons há 110 anos: “Quando alguém diz que não é sobre dinheiro, é sobre dinheiro.”

Claro que é sobre dinheiro. As famílias americanas estão mais pobres – os milionário estão, porém, mais ricos – e os sinais que vêm da economia são tudo menos esperançosos. Assim que o tsunami azul varreu os estados norte-americanos, na madrugada de terça para quarta-feira passadas, os mercados financeiros começaram a animar-se (exceto no que às tecnológicas diz respeito, porque essas já começaram a dar sinais de nervosismo, e não foram poucos).

Ora, todos nós estivemos de olhos postos no outro lado do Atlântico nos últimos dias. O que acontece por lá, mais cedo ou mais tarde, acaba por se refletir na Europa e, não raras vezes, antecipa o que acontece por cá. Na mesma terça-feira em que os eleitores norte-americanos foram às urnas passar um “cartão amarelo avermelhado” à atual Administração republicana nos EUA, o nosso primeiro-ministro, Luís Montenegro, deixava uma mensagem absolutamente vazia (e, por isso mesmo, perigosa) ao país sobre a crise da habitação, que tem levado milhares de pessoas, semanas após semanas, a manifestações em várias cidades do país.

Sobre isso, aliás, o diretor do DN, Filipe Alves, escreveu no seu editorial do dia seguinte, e cito uma passagem particularmente relevante: “As declarações desta terça-feira não ajudaram a travar este processo, porque demonstraram uma perigosa incompreensão da realidade. Aliás, em toda esta história, o Governo revelou incapacidade de compreender o óbvio: a maioria dos manifestantes é pacífica, são pessoas normais que estudam e trabalham, e que se sentem legitimamente revoltadas com uma situação que as afeta gravemente.”

Quando os governantes (os líderes, portanto) vivem dissociados da realidade, e resistem a fazer a única coisa que lhes é pedida – que resolvam os problemas das pessoas nos quais têm mão –, o risco de alienação e de revolta aumenta nessa devida proporção. Numa semana que foi marcada, ainda, pelo anúncio de que a fábrica dinamarquesa ECCO ia fechar portas em Santa Maria da Feira, atirando mais de 600 pessoas para o desemprego (vale a pena ler o trabalho do jornalista Luís Reis Ribeiro sobre despedimentos coletivos desta sexta-feira); uma semana depois da votação de um Orçamento do Estado que tem levantado críticas de vários setores da sociedade, porque não responde às contas das famílias (ainda que responda às contas de Bruxelas), o Governo devia estar a ler os sinais e a ser muito mais efetivo do que aquilo que tem demonstrado ser para resolver questões que são, tão somente, de dignidade.

Quando não se tem dinheiro para pagar o teto sob o qual dormir – um mínimo social; quando não se tem dinheiro para pagar as contas da água, da luz, do gás, do aquecimento; quando não se tem dinheiro para colocar comida na mesa e na boca dos filhos; quando três em cada dez portugueses diz não ter recebido cuidados de saúde no tempo adequado, temos o cenário perfeito para que um tsunami tome forma.

Nos EUA veio na forma do Partido Democrata. Por cá, pode vir em várias formas, mas uma coisa parece certa: ou os líderes emendam rapidamente a mão do caminho que têm estado a fazer para servir, realmente, as necessidades dos cidadãos, ou arriscam-se a que a onda cresça de tal forma que impede, sequer, que voltem a colocar a cabeça debaixo de água.

Às vezes, há vantagens em estarmos um pouco atrás dos EUA na rapidez com que as coisas acontecem. Ter tempo para aprender as lições que vêm daquele lado do Oceano é uma delas.