Chamamos-lhe liderança. Às vezes é só farmar aura
Setembro tem um talento especial para nos devolver a fé. Para quem tem filhos, é uma espécie de janeiro com mochilas: este ano é que vai ser! Vamos preparar tudo na véspera, ninguém vai sair sem pequeno almoço e às 8h00 estaremos todos juntos à porta, emocionalmente estáveis e sem ninguém gritar “ONDE ESTÃO AS MINHAS SAPATILHAS?”.
É bonito. Mas normalmente dura pouco.
Descobri que agora os miúdos farmam aura. Cá em casa tenho, aliás, um especialista na matéria. Para quem não convive diariamente com este sofisticado vocabulário, farmar aura é, mais ou menos, acumular pontos imaginários de estilo, presença e confiança. É fazer qualquer coisa suficientemente cool para impressionar os outros e ganhar estatuto, de preferência com aquele ar de quem não fez esforço nenhum para isso. Porque há uma regra fundamental: se se notar demasiado que estás a tentar, perdes aura. É todo um sistema de pontos invisíveis que ninguém criou, ninguém controla e, aparentemente, todos os miúdos sabem contabilizar. E a expressão diverte-me, sobretudo quando vejo adultos preocupadíssimos com esta nova geração, como se nós não tivéssemos passado metade da adolescência a fazer exatamente o mesmo. Também queríamos impressionar, usar as sapatilhas certas, dizer a coisa certa à pessoa certa e, sobretudo, fingir que não estávamos minimamente interessados em impressionar ninguém. Farmávamos aura artesanalmente; os nossos filhos apenas profissionalizaram o conceito. Por isso, tenho alguma dificuldade com o clássico “esta geração está perdida”. Não me parece perdida. Parece-me antes uma geração a experimentar, a testar limites e a descobrir quem é, que é mais ou menos aquilo que todas fizeram, embora cada uma mantenha a convicção enternecedora de que foi a geração seguinte que inventou a estupidez.
O curioso é que passamos anos a dizer que queremos filhos autónomos, responsáveis e capazes de resolver os seus problemas. Depois lembramos-lhes tudo, verificamos tudo e evitamos que se enganem sempre que conseguimos. Queremos autonomia, mas uma autonomia supervisionada e, se não for pedir muito, bastante parecida com aquilo que nós faríamos.
Com as equipas não somos assim tão diferentes.
Também adoramos a palavra autonomia. Queremos pessoas que pensem pela própria cabeça, mas depois alguém pensa pela própria cabeça e nós pensamos: “Não era bem isto.” Queremos iniciativa, mas estranhamos quando não fomos consultados. Queremos pensamento crítico, desde que a parte crítica não incida demasiado sobre as nossas decisões. E queremos equipas independentes, embora exista uma pequena parte do nosso ego que fique satisfeita quando o telemóvel toca porque, mais uma vez, só nós sabemos resolver aquilo.
Porque há uma verdade pouco elegante sobre liderança: sabe muito bem ser necessário.
Durante muito tempo também associei isso à competência. Quanto mais problemas resolvesse e mais pessoas precisassem de mim, melhor estaria a liderar. Hoje desconfio exatamente do contrário. Se uma equipa fica paralisada quando o líder vai de férias, talvez não estejamos perante um líder extraordinário. Talvez tenhamos apenas criado um excelente serviço de apoio ao cliente centralizado numa pessoa. E talvez seja por isso que continuo a gostar tanto do “We” de “Yes, We Can”. Não pela política transformada em manual de gestão, já temos PowerPoints suficientes, mas pela escolha do pronome. We. Há uma diferença enorme entre ser a pessoa que faz acontecer e criar uma equipa que consegue fazer acontecer. Isso obriga-nos a aceitar a parte menos confortável da autonomia: os outros vão fazer diferente. Vão discordar, experimentar soluções que não escolheríamos e, o verdadeiro teste ao ego, algumas serão melhores do que as nossas.
Ainda ontem falava com um colega sobre as equipas que fomos acompanhando e eu exclamei: “Não é bom vermos o caminho que fizeram? Vê-las crescer e chegar àquele ponto em que já não precisam de nós?” É.
E digo-o com orgulho, porque o objetivo era esse. Ou, pelo menos, devia ser. O problema é que há uma distância considerável entre dizer que queremos desenvolver pessoas e gostar verdadeiramente do momento em que elas deixam de precisar da nossa validação. Talvez ser indispensável seja apenas uma forma adulta, e socialmente mais aceite, de farmar aura.
Com os filhos acontece o mesmo. Um dia temos de deixar de preparar a mochila, verificar os trabalhos e voltar atrás porque o caderno ficou em cima da mesa. É difícil sobretudo porque nós sabemos perfeitamente onde está o caderno.
Nas equipas, um dia alguém que precisava da nossa validação toma uma decisão sem perguntar. Alguém resolve sozinho um problema para o qual antes nos teria ligado. E pode até fazê-lo melhor do que nós. Podemos pensar: “Porque é que não me disse nada?” Ou perceber que era exatamente ali que queríamos chegar.
Talvez uma das melhores medidas de liderança seja perceber quantas coisas continuam a funcionar quando deixamos de estar na sala. Porque ser necessário sabe bem e ser indispensável sabe ainda melhor.Só que não é esse o trabalho.
O trabalho é conseguir que, um dia, já não precisem de nós para tudo, e ter maturidade suficiente para não ficar ofendido com o sucesso.
