China, o que esperar do ano da serpente?

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Estamos a entrar no novo ano lunar chinês, que será o ano da serpente, e que se segue ao ano do dragão. Apesar da força mitológica deste signo, 2024 foi um ano difícil para a China, com registos de atividade que desapontaram em quase todas as áreas da economia. Esta fragilidade aliás levou uma flexibilização mais vigorosa das políticas públicas no final de setembro. Os primeiros sinais de melhoria são evidentes nos dados, após esta ronda de flexibilização. Contudo, as medidas anunciadas até agora podem não ser suficientes para reanimar uma economia em dificuldades, e que tem pela frente desafios de monta, quer a nível interno – onde a procura privada se mantém fragilizada – mas sobretudo a nível externo, onde a guerra comercial promete um clima bem complexo, sobretudo depois da eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos.

A China enfrenta uma longa lista de desafios complexos de gerir internamente. Desde logo porque a recessão no setor imobiliário continua a estar no centro da origem dos problemas económicos desde que abriu a sua economia ao mundo, e deverá continuar a necessitar de utilizar medidas fiscais, complementadas pela flexibilização monetária, para sustentar o crescimento e suporte mais substancial do lado da procura para combater a recessão imobiliária e afastar uma espiral deflacionista.

Numa segunda reflexão, esta situação interna não encontrará qualquer suporte por parte da procura externa. De facto, as exportações enfrentarão ainda mais obstáculos devido às tarifas dos EUA em 2025. A frágil economia interna da China tornou-a mais vulnerável ao protecionismo. Tarifas mais elevadas sobre todas as importações chinesas poderão criar fissuras no modelo de crescimento da produção e das exportações da China, que dura há décadas. Tarifas adicionais sobre importações diretas e redirecionadas de produtos chineses, juntamente com outras restrições tecnológicas, que aparentemente estão previstas.

Em terceiro lugar, a solução para sair desta difícil equação permanece complexa. O gigante asiático provavelmente procurará evitar uma nova escalada na guerra comercial em curso e espera que propostas extremas dêem lugar a acordos negociados. Mas dado o grande desequilíbrio comercial e a concorrência estratégica com os EUA, novas fricções parecem inevitáveis. Pequim poderia retaliar visando os produtos agrícolas americanos e restringindo os embarques de matérias-primas como metais de terras raras. Para compensar os custos das tarifas, Pequim poderá recorrer a respostas políticas mais enérgicas, como o enfraquecimento do renminbi e o aumento dos descontos às exportações. Contudo, será necessária uma desvalorização cambial de magnitude sem precedentes para restaurar a competitividade dos produtos chineses, no pior cenário tarifário. A fraca procura interna, o excesso de capacidade industrial e as pressões deflacionistas provavelmente forçarão os decisores políticos a anunciar estímulos mais diretos, enquanto em termos de política monetária, esta deverá passar por continuar a apoiar a política fiscal conforme necessário. Contudo, também existem boas notícias para a China. Os riscos da dívida dos governos locais diminuíram após o anúncio de um programa para reestruturar dívidas, o que permite reduzir a perceção de um risco contágio a nível confiança dos investidores.

O ano da serpente afigura-se, por tudo isto, um ano complexo e de elevados desafios para o governo chinês. A China terá de fazer avanços tecnológicos significativos para aumentar a produtividade, se quiser evitar a japonização da economia à medida que a demografia se torna mais desfavorável. Apesar de todos os esforços, a deflação é uma possibilidade real a medio prazo - a inflação dos preços no consumidor a oscilar ligeiramente acima de zero e os preços no produtor profundamente em território negativo. Serão necessários um estímulo grande e sem precedentes do lado da procura e um cenário externo favorável para resolver esta economia em dificuldades. A economia chinesa continuará, de acordo com os observadores, a crescer mais do que o mundo desenvolvido (entre 4 e 5%), mas encontra-se numa conjuntura especial em que há mais formas de as coisas correrem mal do que bem.

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