Com a IA, o que significa aprender?
O país investiu em equipamentos, conectividade e formação de professores. Com a Inteligência Artificial já na vida dos alunos, o desafio é transformar esse investimento em melhores aprendizagens. E rever como se ensina, como se avalia e que condições têm os professores para o fazer.
Não partimos do zero. Há agrupamentos a reorganizar turmas, flexibilizar currículos e experimentar outras formas de ensinar e avaliar. Segundo a Direção-Geral da Educação, mais de 72 mil professores concluíram ações de capacitação digital entre 2021 e 2023. A Universidade de Aveiro identificou uma evolução positiva nas competências reportadas pelos participantes. E o PRR investiu em recursos educativos e sistemas de avaliação, além dos equipamentos.
Seria injusto dizer que investimos apenas em tecnologia. Mas em que medida esse investimento está a mudar a experiência de aprendizagem dos alunos?
Um estudo do Iscte sobre os Planos de Ação de Desenvolvimento Digital das Escolas mostra que as dimensões pedagógica e organizacional ocupam um lugar central nos planos. Os testemunhos recolhidos apontam, porém, falta de tempo para os concretizar, incluindo tempo consumido a resolver problemas técnicos. A intenção de transformar existe, as condições nem sempre acompanham.
A IA acrescenta urgência. Pode ajudar a preparar materiais, adaptar exercícios e acompanhar os alunos, mas obriga também a rever tarefas e critérios de avaliação. Um trabalho bem escrito deixou de ser, por si só, evidência suficiente de compreensão. Precisamos de tornar visível o percurso de aprendizagem: as perguntas, as escolhas, os erros e a capacidade de explicar uma conclusão.
Num estudo publicado este ano pela rede EU Kids Online, 85% dos inquiridos entre os 9 e os 17 anos reportam a utilização de ferramentas de IA generativa. A escola precisa de acompanhar esta prática e de preparar os alunos para a utilizar com sentido crítico.
Há experiências em Portugal que podem ajudar. No GovTech Educação, organizado pela APDC em novembro de 2025, o diretor do Agrupamento de Escolas da Boa Água apresentou um modelo assente em projetos, trabalho interdisciplinar e grupos heterogéneos. Integra um percurso de inovação pedagógica desenvolvido também noutros agrupamentos, com avaliação externa publicada.
Em Cristelo, no Concelho de Paredes, um projeto-piloto no ano letivo 2025-2026 liga a flexibilização do Ensino Secundário ao trabalho de projeto e prevê uma disciplina de Pensamento Científico e IA, além de formação docente para criar cenários de aprendizagem com esta tecnologia. Importa acompanhar a execução e os resultados, mas a discussão já chegou à organização do currículo.
A Agência para a Gestão do Sistema Educativo (AGSE) recomenda, nas orientações para o novo ano letivo, tempos comuns de planificação, equipas pedagógicas estáveis e colaboração entre professores. Refere ainda a IA como apoio à diferenciação pedagógica e à redução de tarefas administrativas. Integrar tecnologia exige também mudar a organização do trabalho na escola.
Na Estónia, o primeiro balanço do AI Leap, publicado em agosto, descreve uma abordagem que combina ferramentas, formação e comunidades de aprendizagem entre professores. Vinte mil alunos tiveram acesso a uma aplicação de aprendizagem e 4700 professores a ferramentas e formação. Os efeitos estão em avaliação: não é ainda um sucesso comprovado, mas uma tentativa organizada de aprender, à escala nacional, como integrar a IA na educação.
Os resultados do PISA reforçam a necessidade de agir. As dificuldades na leitura e as desigualdades associadas à origem social exigem respostas. Portugal acompanha a deterioração internacional das aprendizagens, com recuos que pedem uma análise mais completa do que a ideia de um país que perdeu vinte anos.
Contar equipamentos, inscrições em formação ou acessos a plataformas permite acompanhar um investimento. Mas precisamos, sobretudo, de saber se os alunos compreendem melhor, raciocinam com mais autonomia e conseguem avaliar a informação que recebem. É por estes resultados que a transformação digital da escola deve ser aferida.
Para uma economia que precisa de inovar e aumentar a produtividade, a qualidade da formação é central. Tirar partido da IA dependerá também dos conhecimentos que as pessoas mobilizam, das perguntas que fazem e do critério com que avaliam as respostas.
É por isso que a Educação tem de ter lugar na The Next Human Agenda, o tema do Congresso da APDC para 2027. A próxima transformação da escola exige decisões sobre como ensinamos, aprendemos e organizamos o trabalho de quem educa. A tecnologia já está presente. Cabe-nos criar as condições para que se traduza em melhores aprendizagens.
