De Costa Silva a Draghi, Palma e Robinson: o que ainda depende das empresas
Portugal pode decidir que a reindustrialização, a transição energética, a digitalização ou as tecnologias da saúde são prioridades. Pode orientar fundos, criar instrumentos, alterar regras e mobilizar instituições. Ainda assim, nenhuma dessas decisões diz a uma empresa concreta o que deve fazer, para quem ou com que vantagem.
A Visão Estratégica coordenada por António Costa Silva procurou dar ao país um horizonte mais longo para a recuperação. Os seus dez eixos atravessavam infraestruturas, qualificações, ciência, saúde, reindustrialização, reconversão industrial, energia, território, cidades e serviços. Era um enquadramento amplo das mudanças consideradas necessárias e das áreas para onde deveriam convergir políticas públicas, investimento e iniciativa económica.
Mario Draghi tornou entretanto mais exigente o resultado esperado dessas mudanças. A Europa não enfrenta apenas uma necessidade de investir mais. Enfrenta uma distância persistente na inovação, custos de energia elevados, fraca progressão da produtividade e dependências externas que passaram a representar riscos económicos e políticos. A digitalização e a descarbonização serão relevantes na medida em que permitirem às empresas europeias inovar, ganhar escala, reduzir vulnerabilidades e competir em condições mais difíceis.
O estudo de Nuno Palma e James Robinson acrescenta outra limitação. Portugal não sofre por falta de diagnósticos ou de reformas identificadas. Sofre quando as instituições demoram, decidem de forma imprevisível e distribuem a capacidade de execução por prioridades que não chegam a funcionar como prioridades reais. Uma estratégia pode estar correta e o financiamento existir, mas a mudança continuar bloqueada nas condições que deveriam permitir às empresas agir.
Os três contributos ajudam, portanto, a fechar partes diferentes do diagnóstico: Costa Silva identifica os domínios onde o país precisa de mudar, Draghi eleva a exigência competitiva dessa mudança e Palma e Robinson chamam a atenção para a capacidade institucional necessária para a executar. O diagnóstico português torna-se mais completo, mas continua num nível em que não é possível decidir a estratégia de cada empresa.
A política pública pode indicar onde haverá mais investimento, regulação nova, procura pública, infraestruturas ou pressão competitiva. Esses sinais alteram o contexto e podem justificar que uma administração avalie uma possibilidade que antes não existia. Não demonstram que todas as empresas devam segui-la, nem esclarecem que posição uma empresa particular conseguirá ocupar de forma rentável.
É frequente uma prioridade pública começar a entrar na empresa através do vocabulário. A apresentação institucional passa a referir sustentabilidade, inteligência artificial, saúde, energia ou indústria avançada. Surgem candidaturas, consórcios, contactos e reuniões. A equipa técnica é chamada a explicar o que já consegue fazer e o que talvez pudesse desenvolver. Este movimento pode ser útil, mas também pode consumir recursos antes de estar definido que problema concreto será resolvido, quem terá interesse suficiente em pagar por essa solução e por que razão aquela empresa estará melhor colocada do que outras.
Isso não significa que a empresa deva esperar até possuir informação completa. Entrar numa atividade nova implica sempre incerteza, aprendizagem e algum investimento antecipado. Também não seria razoável exigir a uma PME que ignore áreas apoiadas por políticas públicas ou mercados que poderão crescer. O risco aparece quando a importância nacional do domínio é usada como substituto da escolha empresarial que ainda falta fazer.
Antes de comprometer capital, pessoas e atenção de gestão, interessa perceber que mudança naquela prioridade cria um problema reconhecível para um Cliente. Na transição energética, pode haver negócio em reduzir consumo, adaptar um processo, gerir variabilidade, prolongar a vida de um ativo ou demonstrar a origem de um material. Na digitalização, pode estar em reduzir uma espera, um erro, uma decisão tardia ou trabalho técnico que hoje é repetido em cada encomenda. O rótulo nacional é demasiado amplo para orientar uma decisão; o problema permite começar a delimitá-la.
Depois é necessário perceber por que razão a empresa poderá ter uma posição defensável. Dispor de máquinas, técnicos, software ou experiência num setor próximo pode ajudar, mas não constitui por si só uma vantagem. A diferença pode resultar de um processo difícil de reproduzir, do conhecimento de uma aplicação, da capacidade de combinar várias competências, da rapidez de resposta ou de uma relação que permita compreender melhor o problema. Se essa diferença não for reconhecida por quem compra, a competência existe, mas ainda não se transformou numa posição competitiva.
Também é preciso testar o modelo económico antes de confundir atividade com progresso. Quem pagará pela diferença? O preço continuará ligado sobretudo a horas e materiais? Há procura suficiente para justificar o esforço? A empresa conseguirá repetir a solução, aprender com cada entrega e reduzir o custo de voltar a vender e executar? Ou cada novo projeto exigirá quase o mesmo trabalho comercial, técnico e de adaptação do primeiro? Uma área pode ser estratégica para o país e, apesar disso, não oferecer uma posição economicamente interessante para determinada empresa.
Estas perguntas não substituem tecnologia, certificação, investimento ou desenvolvimento comercial. Servem para lhes dar direção. Também não reduzem a responsabilidade do Estado. Licenciamento previsível, Justiça atempada, energia competitiva, qualificações adequadas e instrumentos públicos bem executados alteram profundamente as opções disponíveis. Um Estado mais capaz permite às empresas tentar mais e assumir melhor alguns riscos; não decide por elas quais desses riscos fazem sentido.
É nesta passagem que a produtividade nacional volta a depender de decisões tomadas dentro das empresas. Os indicadores agregados resultam da forma como milhares de organizações usam tecnologia, qualificações, capital e conhecimento para produzir algo que o mercado valoriza. Escolher corretamente os domínios onde o país pretende avançar melhora as condições. Remover bloqueios institucionais torna a execução mais provável. O resultado económico só aparece quando empresas suficientes encontram, dentro desses domínios, uma maneira melhor de produzir, servir e competir.
Portugal precisa das discussões abertas por António Costa Silva, Mario Draghi, Nuno Palma e James Robinson. Precisa de direção, exigência competitiva e instituições capazes de executar. Mas esse trabalho não elimina a escolha que continua do lado das empresas: perceber onde uma destas mudanças cria um problema relevante, que diferença conseguem oferecer e se essa diferença permite construir um negócio repetível e sustentável.
