Descarbonizar sem dependência geopolítica
Durante anos, a transição para uma economia de baixo carbono foi apresentada, sobretudo, como apenas uma resposta às alterações climáticas. As sucessivas crises energéticas estão a mudar essa narrativa. Descarbonizar passou também a significar reduzir vulnerabilidades externas de soberania, garantir energia competitiva e controlar tecnologias estratégicas. Não se trata apenas de quanto carbono conseguimos eliminar, mas também saber quem produz a energia, quem controla a tecnologia e quanto custa essa transformação.
Uma primeira inferência nasce do seguinte paradoxo: a crise dos combustíveis fósseis pode estar a acelerar a própria transição. Ao contrário dos choques petrolíferos dos anos 70, existem hoje alternativas maduras e competitivas. Em 2025, o solar respondeu por 75% do aumento da procura mundial de eletricidade, segundo a Ember, think tank especializado em energia, citada pelo relatório do BNP Paribas. E para a Europa e para a União Europeia, dependente da importação de hidrocarbonetos, eletrificar deixou de ser apenas política climática para se tornar também uma questão de soberania energética.
E aqui surge uma segunda reflexão. Reduzir a dependência do petróleo e do gás não significa conquistar independência. A China concentra cerca de 80% da capacidade mundial de produção de equipamentos solares e posições dominantes nas baterias. Entre março e maio de 2026, as exportações chinesas de tecnologias de baixo carbono cresceram 36%. A Europa arrisca substituir uma dependência energética por outra, agora tecnológica e industrial. Descarbonizar tornou-se também política industrial e isto não pode ser ignorado.
Por fim, mas não menos importante, temos a componente económica. A UE pretende elevar a eletrificação de 23% para 46% em 2040, mas em 21 Estados-membros a eletricidade continua a ser duas vezes mais cara do que os combustíveis fósseis, segundo a Comissão Europeia. Se eletrificar significar produzir mais caro, a Europa pode reduzir emissões enquanto perde indústria. A transição terá de resolver três equações: carbono, segurança energética e competitividade.
No caso de Portugal, o país parte com uma vantagem que já não é apenas potencial. O Plano Nacional de Energia e Clima (PNEC) prevê elevar a capacidade solar para 20,8GW e a eólica para 12,4GW até 2030. Mas produzir eletricidade renovável não chega. O próximo passo é transformá-la numa vantagem industrial, atraindo indústria eletrificada, centros de dados e atividades intensivas em energia. Portugal dificilmente fabricará os painéis ou baterias que a China domina. Mas pode usar energia limpa e competitiva para produzir em Portugal aquilo que a Europa continuará a precisar de produzir.
