Discernir
Há palavras que parecem pertencer a outro tempo, mas que, quando as revisitamos, percebemos que nunca foram tão atuais. Discernimento é uma delas.
Vivemos rodeados de informação, opiniões e estímulos permanentes. Nunca tivemos tantos dados para apoiar as nossas decisões e, no entanto, nunca foi tão difícil distinguir o essencial do acessório. Talvez porque decidir bem não dependa apenas da informação disponível, mas da forma como a olhamos.
Santo Inácio de Loyola deu uma importância central ao discernimento. Não o entendia apenas como a capacidade de escolher entre duas alternativas, mas como um exercício de liberdade interior, de saber reconhecer aquilo que verdadeiramente nos aproxima do que é justo, do que faz sentido e do que serve um bem maior. Uma ideia com quase cinco séculos que continua surpreendentemente atual.
Também nas organizações, as decisões mais importantes raramente são as mais urgentes. São aquelas que exigem ponderação, capacidade de escutar, coragem para contrariar a corrente e lucidez para distinguir o que é estrutural daquilo que é apenas circunstancial.
Vivemos, porém, numa cultura que valoriza a rapidez. Espera-se que os líderes tenham resposta para tudo, estejam sempre disponíveis e reajam de imediato. Como se a velocidade fosse, por si só, um sinal de competência, o que nem sempre é.
Há decisões que não precisam de mais informação. Precisam de mais distância.
Distância para observar o contexto com outra clareza, para questionar pressupostos que fomos aceitando sem dar conta, para ouvir opiniões diferentes. E, talvez mais difícil do que tudo isso, para nos ouvirmos a nós próprios.
É por isso que olho para o período de férias como algo muito mais importante do que uma simples interrupção do trabalho. Descansar é necessário, naturalmente. Mas talvez o maior benefício seja outro: recuperar o silêncio de que tantas vezes nos privamos durante o resto do ano.
É nesse silêncio que muitas ideias ganham forma, que os problemas encontram uma nova perspetiva e que as decisões amadurecem.
Num mundo que nos empurra constantemente para a ação, talvez seja útil recordar que parar também faz parte da liderança.
Porque o discernimento não nasce da pressa, cultiva-se no tempo, na reflexão e na capacidade de criar espaço para pensar.
Desejo que este verão nos ofereça precisamente isso: não apenas descanso, mas a serenidade necessária para regressarmos com um olhar mais lúcido sobre aquilo que verdadeiramente importa.
