Empresas no olho do furacão: cumprir tudo e competir, como?

Margarida Vaqueiro Lopes

Subdiretora do Diário de Notícias e diretora executiva do Dinheiro Vivo

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Novas regras sobre transparência salarial, critérios ESG mais apertados, salários mínimos a subir, Inteligência Artificial, custos operacionais a disparar e o eterno problema português, a produtividade abaixo da média europeia. As empresas nacionais estão no meio de uma espécie de tempestade perfeita, com uma série de novas obrigações físicas, tecnológicas, laborais e ambientais para cumprir, e podiam ter-se preparado melhor para ela, visto que não chegou sem aviso.

No entanto, quando estamos no meio do furacão, importa pouco olhar para o passado – ou, como diz o ditado popular, que funciona muito melhor em inglês, mas que replico aqui em tradução livre, “se estás a atravessar o inferno, continua a caminhar”. Neste caso, em concreto, significa que as organizações têm de se apressar a cumprir as regras se querem ter alguma hipótese de ganhar terreno às suas pares europeias e mundiais.

As novas normas de transparência salarial, que deverão ser transpostas da diretiva europeia para a lei nacional muito em breve – já há proposta, mesmo que dois meses depois do prazo determinado pela UE –, vão obrigar as empresas a mexer em algo que lhes é muito caro (os salários) e que vai obrigar a algum investimento e, possivelmente, a alguns custos para suprir as desigualdades eventuais.

No ano passado, a Comissão Europeia reconheceu que a adoção das Normas Europeias de Relato de Sustentabilidade (ESRS, na sigla em inglês), que definem o que as empresas devem reportar em termos de dados ambientais, sociais e de governação (ESG) ao abrigo da Diretiva de Relato de Sustentabilidade das Empresas (CSRD) da União Europeia não estava somente atrasada: o documento da Comissão dava mesmo conta de que os custos de reporte são desproporcionados para as PME, que representam mais de 99% do tecido empresarial português. O SME Burden Assessment de 2025 estimava que o custo de compliance ESG já representa 3% a 7% do volume de negócios de muitas empresas – e que o tempo administrativo dedicado ao reporte aumentou 18% num ano.

"As regras são absolutamente fundamentais para que uma sociedade – empresa, família, organização – funcione"

Já este ano, Bruxelas apresentou o Sustainability Reporting Simplification Package, admitindo que a carga regulatória está a travar a competitividade europeia – num país em que a produtividade das empresas é 30% inferior à das congéneres europeias, o impacto é significativo.

Recorde-se que dados do FMI mostraram que, em 2025, a produtividade portuguesa continuava 33% abaixo da média da UE, com um crescimento de apenas 0,4% entre 2024 e 2025. No mesmo sentido, o Productivity Dashboard 2026 da OCDE confirma que a produtividade europeia cresceu apenas 0,6% em 2025. E os relatórios Draghi + Letta reforçam que a Europa perdeu 20% de competitividade face aos EUA desde 2010.

A juntar-se a tudo isto, temos ainda o cenário inflacionista dos últimos anos. Dados do Eurostat deste ano colocam Portugal, novamente, no topo dos países com a energia mais cara da UE para consumidores industriais, numa altura em que os conflitos no Médio Oriente não dão descanso e provocam aumentos de preço sistemáticos, o que significa, em termos simples, que as empresas portuguesas estão a pagar mais para produzir, para transportar, e até para cumprir regras.

E desengane-se, caro leitor, se acredita que escrevo isto tudo porque desconfio de regras. Não desconfio. Aliás, ainda recentemente escrevi, numa das páginas do Diário de Notícias, que as regras são absolutamente fundamentais para que uma sociedade – empresa, família, organização – funcione. No entanto, nesta altura, creio que importa fazer uma reflexão séria sobre o tempo, o espaço e, sobretudo, o apoio que está a ser dado às empresas para que não sufoquem, perante tantas regulações e obrigações que têm de cumprir, sob pena de não apenas enfrentarem sanções, como de perderem ainda mais competitividade num cenário que já não é particularmente otimista.

E se o impacto da aplicação destas medidas está, pelo menos, estimado, vale a pena perguntar quem está, e como está, a medir o impacto acumulado do cumprimento de todas estas obrigações nos tempos previstos? Porque é importante garantir que o paciente não morre da doença, mas também não morre da cura.

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