EUA-Portugal: uma relação histórica previsível
"Podemos mudar a história, mas não a geografia. Podemos mudar de amigos, mas não de vizinhos.” A frase anterior, do então primeiro-ministro indiano Atal Behari Vajpayee, tem vindo a ser recuperada nos últimos tempos, sobretudo devido ao avolumar das tensões militares na Europa.
Os suecos, os finlandeses e os países bálticos usam-na a propósito da vizinhança próxima com a Rússia. A mesma reflexão, aplicada a Portugal , só pode incluir a sua relação com os Estados Unidos, mais do que com a vizinha Espanha. Aliás, num momento em que se celebra os 250 anos dos Estados Unidos, convém mesmo refletir na relação histórica, económica e militar entre Portugal e o seu vizinho da frente, do outro lado do Atlântico.
Economicamente, é uma relação forte. Os Estados Unidos são, desde há poucos meses, o terceiro maior investidor em Portugal e o primeiro não-europeu na lista do investimento direto estrangeiro, agora à frente da China.
Empresas como a Aquaterra, a Westlake, a Visteon, a UPS têm apostado em fazer negócios nos seus setores em Portugal, juntando-se às gigantes IBM, Amazon Web Services, Google e Microsoft, que já operam há muito tempo no país. Aliás, a Microsoft anunciou no ano passado a intenção de investir cerca de 10 mil milhões de dólares em centros de dados de Inteligência Artificial em Sines, em parceria com a Nscale.
Esse impacto positivo na economia vem com um preço. Tem sido um dos argumentos esgrimidos pela diplomacia americana quando adota posições mais duras. Foi assim quando Portugal vendeu uma participação de controlo na REN a uma empresa estatal chinesa, a State Grid. Ou quando sucessivos embaixadores dos Estados Unidos em Lisboa sinalizaram a necessidade de investimento para que o Porto de Sines pudesse receber mais dos navios metaneiros americanos, desde 2007 cheios de shale gas (gás de xisto). E até quando exigiram que a gigante tecnológica chinesa Huawei fosse retirada das redes 5G portuguesas. Neste último caso, o governo da altura (PS, António Costa) acedeu, tal como aconteceu a nível central na UE.
As compras de equipamento militar juntam todas estas vertentes: o interesse económico, a segurança nacional e o interesse estratégico de um país. Também neste campo – em vias de ser testado uma vez mais, já que Portugal se apresta para comprar caças para substituir os atuais F-16 – a citação inicial de Vajpayee se aplica na perfeição.
A história militar portuguesa está profundamente entrelaçada com a norte-americana. Desde a Segunda Guerra Mundial, passando pela integração na NATO, até ao uso da Base das Lajes como ponto crítico de projeção de forças, Portugal habituou-se a ver Washington como o seu principal garante de segurança.
E esta relação criou uma espécie de reflexo estratégico: quando surge uma decisão estrutural, como a escolha de um novo caça, o país olha instintivamente para os EUA. Não porque faltem alternativas – as soluções europeias da SAAB e da Airbus são ambas muito válidas –, mas porque o interesse estratégico pesa mais do que qualquer ficha técnica ou projeto industrial associado.
O F-35, nesse sentido, é quase um símbolo. Podemos não valorizar o facto de o caça da Lockheed Martin ser tecnologicamente mais avançado do que os concorrentes. Podemos até ignorar que os principais países da NATO já o adotaram e têm reforçado as encomendas. O F-35 representa algo mais: é a continuidade de uma dependência operacional que Portugal nunca rompeu.
A interoperabilidade com países aliados, a integração em missões conjuntas e o acesso a sistemas de comando e controlo norte-americanos tornam-se, assim, argumentos decisivos. Mesmo que outros caças europeus ofereçam custos mais baixos ou manutenção mais simples, nenhum oferece a mesma garantia política: comprar americano é permanecer dentro do guarda-chuva estratégico americano. É por isso que o outro país europeu que mais olha para o Atlântico – o Reino Unido – também comprou o caça americano, apesar de fazer parte do consórcio do Eurofighter (que equipa várias das suas esquadras de caça).
Há também um fator psicológico. Portugal raramente assume posições de rotura na Defesa. Prefere alinhar com o consenso atlântico, reforçar a previsibilidade e evitar fricções diplomáticas. A escolha do F-35 seria, por isso, menos uma decisão técnica e mais uma reafirmação identitária: Portugal continua a ver a sua segurança como parte de uma arquitetura liderada pelos EUA.
Num momento em que a Europa discute autonomia estratégica, esta opção revela um país que, apesar de europeu, continua (ou vê-se obrigado a continuar) a confiar mais no parceiro transatlântico. Não é uma escolha neutra. É uma escolha histórica.
