África está online. A questão agora é se está conectada nos seus próprios termos
Durante anos, o debate em torno do futuro digital da África centrou-se numa única questão: Quem tem acesso à Internet? Quantas pessoas estão online? Quantos cabos submarinos estão a amarrar nas suas costas? Quão rápido a rede está a expandir-se? Estas são perguntas legítimas – mas já não são as perguntas certas.
Como alguém que trabalha na interseção entre a infraestrutura digital e a conectividade global, acredito que precisamos de mudar o rumo da conversa. A verdadeira limitação que a África enfrenta hoje não é se o continente está conectado – está, cada vez mais – mas sim a forma como essa conectividade é desenhada, encaminhada e otimizada
Os números contam apenas parte da história
África conta agora com cerca de 646 milhões de utilizadores de Internet, face a apenas 181 milhões em 2014, e as taxas de penetração atingiram aproximadamente 43% em todo o continente, com algumas regiões, como a África Austral e do Norte, a superarem já a média global (Data Reportal, 2025). São números notáveis, sob qualquer perspetiva.
E, no entanto, apesar de albergar 18% da população mundial, a África detém menos de 1% da capacidade global de data centers (Fórum Económico Mundial, abril de 2025). Em meados de 2025, o continente tinha apenas 223 data centers espalhados por 38 países, em comparação com os mais de 11 800 a nível global (African Energy Chamber, 2025). A matemática é clara: a África está a conectar-se rapidamente, mas ainda não está a alojar ou a trocar os seus próprios dados à escala necessária.
Isto cria uma ineficiência estrutural com consequências económicas reais. Uma parte significativa do tráfego de internet em África ainda sai do continente – sendo frequentemente encaminhado por Londres ou Frankfurt – antes de regressar ao seu destino. Uma análise da Chavula & Phokeer demonstraram que mais de 75% do tráfego interuniversitário na África segue estas rotas intercontinentais sinuosas, resultando em latências que chegam a ser o dobro das rotas puramente intra-africanas. Em termos práticos, um e-mail enviado de uma ponta a outra de uma cidade na Nigéria ou no Quénia pode viajar milhares de quilómetros além-mar antes de chegar ao destinatário.
Isto não é apenas um inconveniente técnico. É um estrangulamento económico.
A camada em falta: interconexão, e não apenas cabos
Os cabos submarinos transformaram a largura de banda internacional da África na última década. Mas os cabos, por si só, não criam um ecossistema digital funcional. O que importa tanto quanto isso – e que é demasiadas vezes descurado – é a interconexão: a capacidade de as redes trocarem tráfego de forma direta, local e eficiente. Os Pontos de Troca de Tráfego (IXs – Internet Exchanges) são a camada de infraestrutura que torna isto possível. Eles permitem que o tráfego local permaneça local, possibilitam ligações diretas a fornecedores de Cloud e de conteúdos, e reduzem a dependência de trânsito internacional dispendioso.
O progresso alcançado pelos IXs na África do Sul, Quénia e Nigéria ilustra bem o que é possível atingir: o NAPAfrica, o principal IX da África, ultrapassou os 5 terabits por segundo de tráfego em março de 2025, um marco que sinaliza a escala que estes ecossistemas podem atingir quando devidamente apoiados (Intelligent CIO Africa, 2025). Mas esse nível de interconexão continua a ser a exceção e não a regra. Para a maior parte do continente, o ecossistema regional de troca de tráfego ainda está subdesenvolvido. A capacidade, por si só, não otimiza o desempenho. O que realmente melhora a latência, a eficiência de custos e a experiência do utilizador é onde e como as redes se interconectam. África, hoje, está conectada mas é ineficiente, e essa lacuna está a custar caro às suas economias.
Por que razão a era da IA torna esta urgência ainda maior
Se a última década consistiu em trazer as pessoas para o mundo online, a próxima será marcada pela intensidade do seu uso da Internet, sendo a inteligência artificial o acelerador mais poderoso dessa transição.
De acordo com uma análise da McKinsey de 2025, projeta-se que a procura global por capacidade de data centers quase triplique até 2030, atingindo os 219 gigawatts – com cerca de 70% desse crescimento a ser impulsionado exclusivamente por cargas de trabalho de IA. As cargas de trabalho de inferência de IA estão a crescer a uma taxa anual composta de 35% e deverão ultrapassar todo o tráfego não relacionado com IA até 2029 (McKinsey, abril de 2025). Estas cargas de trabalho movimentam volumes massivos de dados, exigem uma latência ultrabaixa e dependem da troca de dados em tempo real entre regiões.
A pergunta que os governos e operadores africanos devem fazer é direta: poderá o continente participar de forma significativa na economia da IA se a sua conectividade continuar a ser indireta e ineficiente? Não é possível construir serviços baseados em IA, plataformas de fintech ou negócios nativos digitais (cloud-native) numa arquitetura de rede que encaminha os seus dados por outro continente antes de estes regressarem a si.
A interconexão não é um bónus técnico dispensável. Na era da IA, é uma camada arquitetónica crítica, tão fundamental quanto a energia ou a infraestrutura física.
Reenquadrar a fratura digital
A fratura digital é habitualmente descrita como uma lacuna de acesso. Contudo, cada vez mais, a divisão mais relevante é arquitetónica: para onde fluem os dados, quão eficientemente se movem e quem controla a sua troca. África não carece de potencial de conectividade. A infraestrutura submarina está lá. A procura está a acelerar – projeta-se que os utilizadores de Internet ultrapassem os 1,1 mil milhões até 2029 (Statista, 2025). O investimento está a fluir: a IFC (International Finance Corporation) comprometeu 100 milhões de dólares em abril de 2025 para expandir a infraestrutura de data centers em seis países africanos, no maior investimento em infraestrutura digital que a instituição já realizou no continente até à data.
O que a África precisa agora não é de mais acesso, mas sim de uma melhor arquitetura. IXs regionais mais fortes para ancorar o tráfego local. Corredores de troca direta entre cidades africanas – de Lagos para Nairobi, de Joanesburgo para Acra – sem desvios pela Europa. E um maior alinhamento com parceiros de interconexão que operem em termos neutros, abertos e escaláveis
O papel do Sul da Europa, e de Portugal, neste cenário
A geografia continua a importar no mundo digital, ainda que se fale da Internet como algo sem fronteiras. E uma das dinâmicas estrategicamente mais importantes, mas subvalorizadas no momento, é o papel que o Sul da Europa, e Portugal em particular, podem desempenhar como ponte entre a África, a Europa e as Américas.
Lisboa situa-se na extremidade atlântica da Europa, na encruzilhada natural entre a Europa, a África, a América do Norte e a América do Sul. Alberga uma densidade crescente de amarrações de cabos submarinos, data centers neutros em relação a operadores (carrier-neutral) e plataformas de interconexão. Para os operadores africanos, isto altera a equação do encaminhamento: em vez de enviarem tráfego por Londres ou Frankfurt, as redes podem alcançar a infraestrutura de interconexão europeia com uma latência significativamente menor e custos de trânsito reduzidos.
Isto tem impacto nos utilizadores comuns: acesso mais rápido à cloud, videochamadas mais fluidas e serviços digitais mais fiáveis. Mas importa ainda mais para as aplicações baseadas em IA que irão definir a próxima geração das economias digitais africanas. Milissegundos de latência poupados em escala traduzem-se diretamente numa melhor experiência do utilizador, competitividade e custos.
Portugal não se está a posicionar como um hub dominante pelo qual as redes africanas são obrigadas a passar. O modelo é mais útil do que isso: trata-se de uma ponte eficiente, acessível e geograficamente lógica, onde as redes africanas, americanas e europeias podem trocar tráfego diretamente, em termos neutros.
A oportunidade está aqui. A urgência também
A próxima fase do desenvolvimento digital global não será decidida por quem está conectado, mas sim por quem está conectado de forma eficiente. A África encontra-se num verdadeiro ponto de viragem. A procura está a aumentar. A infraestrutura está a expandir-se. As economias digitais estão a acelerar. Mas sem a arquitetura de interconexão correta, grande parte desse potencial continuará limitada, e o continente continuará a subsidiar a economia de rede de outras regiões através de trânsito caro e ineficiente.
A tecnologia existe. A geografia faz sentido. As parcerias estão a formar-se. O que se exige agora é urgência e a vontade de tratar a interconexão não como um mero detalhe de infraestrutura, mas sim como uma estratégia económica.
No seio da economia digital, a distância já não se mede em quilómetros. Mede-se em milissegundos. E para a África, ultrapassar essa lacuna já não é uma questão de acesso – é uma questão de arquitetura.
