Habitação e memória seletiva

Nuno Botelho

Presidente da Associação Comercial do Porto

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A política portuguesa é fértil em episódios de memória seletiva. Sempre que há uma polémica emergente, é quase inevitável a inclinação dos protagonistas para reescrever a história ou, numa versão mais ligeira, torcer os factos para corresponderem à narrativa. Em relação ao tema da habitação, foi a vez de Mário Centeno seguir o guião.

De acordo com o antigo ministro das Finanças, a falta de casas em Portugal deve-se a dois fenómenos estruturais que, sem surpresa, nada têm a ver com a incompetência dos governos de que fez parte para resolver o problema. O primeiro é, aliás, autoelogioso: deve-se à “duplicação” dos salários na última década que, na mesma linha de raciocínio, puxaram pela procura. A segunda explicação está na malfadada troika que, de acordo com o ex-governador do Banco de Portugal, “aniquilou” o setor da construção.

A explicação é conveniente para Centeno, mas objetivamente falsa. Deste logo, porque se houve troika e a consequente destruição de atividade económica, tal deveu-se a um único motivo: a irresponsabilidade financeira dos Governos Sócrates, que atiraram o país para uma crise sem precedentes. A promoção imobiliária e a construção civil foram duas das principais vítimas do período de resgate.

Já o milagre da multiplicação salarial está no domínio da fantasia onírica. Ainda que o Salário Mínimo Nacional tenha crescido cerca de 80% desde 2015, quer a média, quer a mediana de vencimentos está muito longe da duplicação referida por Mário Centeno, que, aliás, deveria estar atento aos alertas que o “seu” Banco de Portugal fez sobre os efeitos da compressão dos salários.

Há, ainda, uma outra variável que, nem o antigo titular das Finanças, nem outras figuras do PS ousam trazer para este debate. Dá pelo nome de imigração e tem, como contexto de base, a entrada de mais de um milhão de estrangeiros no país, num curto espaço de tempo. Não ficava mal reconhecer que a política de portas abertas teve efeitos económicos não acautelados, entre os quais o aumento do preço das casas.

Não há responsabilidades exclusivas numa crise com tantas causas, como é o caso da habitação. Mas exigem-se mínimos de seriedade intelectual, sob pena de estarmos sempre mais preocupados em fugir às responsabilidades, do que em encontrar soluções. Neste, como noutros temas, o país precisa de descontaminar a discussão e focar-se na resposta aos problemas.