IA não decide o futuro do trabalho: vamos ser nós
Durante anos, repetiu-se uma ideia relativamente confortável de que as profissões mais protegidas da automação seriam precisamente aquelas que exigem mais formação, credenciação e especialização. A lógica parecia simples: se um trabalho exige anos de estudo e conhecimentos sofisticados, seria naturalmente mais difícil substituí-lo por máquinas.
No entanto, estudos recentes, incluindo um da Anthropic, começam a apontar para um cenário diferente. Mostram que muitas das profissões mais expostas à automação vêm do universo do knowledge work, como programadores, analistas financeiros, especialistas em registos médicos ou apoio ao cliente. Esta visão foi reforçada por Mehran Sahami, da Universidade de Stanford, que sublinha que o impacto da Inteligência Artificial (IA) incide sobretudo nas tarefas dentro de cada profissão e não apenas nas profissões como um todo.
Também os dados da Goldman Sachs indicam que áreas administrativas e jurídicas têm uma elevada percentagem de tarefas potencialmente automatizáveis, ao contrário de setores como a construção, manutenção ou limpeza, que apresentam menor exposição. Em paralelo, o AI Jobs Barometer, da PwC, diz que quanto maior for a exposição de uma profissão à IA, mais rápida é a evolução das competências exigidas aos trabalhadores.
O resultado é um fenómeno menos visível, mas potencialmente mais profundo: não só o número de empregos pode mudar, como também a própria natureza das competências dentro de cada profissão.
No entanto, o sinal mais relevante talvez não esteja apenas nas profissões mais expostas. Está na distância entre aquilo que a tecnologia já consegue fazer e o que as organizações efetivamente fazem com ela.
A história da inovação tecnológica mostra que a verdadeira disrupção raramente acontece quando algo se torna tecnicamente possível, mas sim que a transformação ocorre quando as organizações redesenham os seus processos em torno dessas novas capacidades. É aqui que os papéis profissionais mudam, que as estruturas das equipas se alteram e que a economia do trabalho começa a ser verdadeiramente redefinida.
Tudo indica que não caminhamos necessariamente para um cenário de desaparecimento massivo de profissões. O que está a emergir é um aumento significativo da produtividade por trabalhador. Cada um de nós poderá produzir muito mais e algumas equipas tornar-se-ão mais pequenas. Sendo que o tradicional funil de entrada no mercado de trabalho poderá estreitar-se, à medida que parte das tarefas iniciais passa a ser absorvida por sistemas de IA.
Aqui, levanta-se uma questão essencial: se uma equipa se tornar 25% mais produtiva, graças à IA, o que farão as organizações com esse aumento de produtividade? Produzem mais? Reduzem o tamanho das equipas? Ou cortam o tempo de trabalho? A resposta não está na tecnologia, está sim nas escolhas humanas.
Esta perspetiva está relacionada com um conceito conhecido como Turing Trap: a tendência para utilizar novas tecnologias sobretudo para substituir o trabalho humano, em vez de as usar para ampliar as capacidades humanas e criar formas de valor.
A história económica mostra que este resultado não é inevitável. As tecnologias que automatizam tarefas também criam novas atividades, setores e profissões. De facto, grande parte do crescimento do emprego nas últimas décadas resultou precisamente da criação de tipos de trabalho.
A verdadeira questão não é, portanto, apenas tecnológica. É institucional. A IA pode amplificar o talento humano ou substituí-lo, pode aumentar a prosperidade coletiva ou concentrar ainda mais valor nas mãos de alguns.
Nenhuma destas trajetórias está predeterminada. O futuro do trabalho na era da IA não será decidido apenas por algoritmos. Será decidido pelas escolhas humanas sobre como queremos usar a tecnologia.
