IA, ‘show me the money!’
Os americanos têm frases muito boas para desmontar quem fala muito, mas que se recusa – vezes e vezes sem conta – “a ir a jogo”. “Put your money where your mouth is” é uma delas e “Show me the money” é outra. Lembrei-me destas ao ler o texto que faz a manchete desta edição do Dinheiro Vivo. Os avanços da Inteligência Artificial têm deslumbrado até os mais críticos e assustado os mais corajosos. Mas – por muito terreno que se tenha feito – ainda falta ir além do hype e mostrar que gera dinheiro.
É precisamente isto que o novo relatório da QuantumBlack confirma: a tecnologia atingiu a maturidade operacional, mas não a maturidade financeira. A adoção é quase universal – 89% das organizações globais já utilizam IA e 80% dos profissionais registam ganhos diários de produtividade –, mas o impacto no resultado operacional (o ROI, Return On Investment) continua limitado. Pelo segundo ano consecutivo, apenas 37% das empresas registam efeitos positivos no EBIT e só 6% pertencem ao grupo dos high-performers, onde a IA contribui para mais de 5% dos resultados.
Na economia tradicional – indústria pesada, oil&gas, energias renováveis, aviação, defesa –, a tecnologia está entregue e é controlada por poucos, pelo que são poucos os que têm retornos suficientes para crescer e conquistar mercado.
O paradoxo da economia digital é que a tecnologia está em tudo e, ainda assim, à semelhança do que vemos noutros setores, o retorno continua a ficar retido em poucos.
Em conversa com o Dinheiro Vivo, Rita Calvão, da McKinsey Portugal, desmonta este paradoxo. A escala, diz, não é o fator decisivo. O estudo mostra que as grandes multinacionais com receitas acima de mil milhões de dólares implementam IA em grande escala (54%) e recorrem a agentes autónomos em 40% dos casos, enquanto nas empresas de menor dimensão a adoção destes agentes estagnou nos 22%.
Mas isso não quer dizer que as PME estão condenadas a ficar para trás. “Existem organizações que estão a conseguir transformar a IA em valor muito mais rapidamente do que outras, independentemente da sua dimensão, porque têm maior clareza sobre os problemas que procuram resolver e maior capacidade para transformar a forma como trabalham”. A diferença não está no tamanho, está na capacidade de execução.
Para Portugal, esta leitura é particularmente relevante. Num país dominado por PME, a tentação de assumir um atraso estrutural é grande. Mas o relatório aponta para um conjunto de vantagens competitivas que podem funcionar como equalizador: 98% de cobertura de fibra ótica, custos de energia verde 30% inferiores à média europeia e um ecossistema tecnológico que já integra IA generativa em setores como banca, saúde e energia.
“A IA reduz algumas das barreiras de escala que tradicionalmente favoreciam as grandes organizações”, sublinha Rita Calvão. O país tem, portanto, condições para acelerar – desde que o quadro regulatório não funcione como travão.
É aqui que o poder político “tem de pôr o dinheiro nas medidas com que encheu a boca”. Não se pode bater o bombo que Portugal é um berço de startups, uma espécie de miniparaíso dos empreendedores, com mão de obra barata e excelentes quadros, prontos a colher ainda frescos nas universidades e, depois, nem sequer tentar acompanhar a velocidade com que a tecnologia evolui.
Rita Calvão deixa um aviso claro: sem simplificação regulatória e incentivos dirigidos às PME, Portugal arrisca-se a desperdiçar este potencial.
O relatório revela ainda uma mudança estrutural na estratégia tecnológica das empresas: 32% das companhias abdicaram de comprar software comercial, preferindo desenvolvê-lo internamente com coding agents. A tendência é mais forte nas grandes organizações, mas não elimina a necessidade de parceiros tecnológicos. Pelo contrário, reforça a importância da integração, da arquitetura, da cibersegurança e da governação. A sofisticação aumenta; a dependência também.
O impacto no emprego continua a ser o tema mais sensível. Duas em cinco empresas (39%) preveem cortes de pessoal nos próximos 12 meses devido à adoção de IA, mas o histórico recomenda prudência. No relatório do ano passado, 32% antecipavam reduções e apenas 14% as concretizaram. A maioria manteve as equipas, mas isso não quer dizer que o venham a fazer agora ou no futuro. Aliás, a responsável da McKinsey insiste que a tecnologia não implica uma crise laboral.
A IA já provou que aumenta produtividade. Resta agora mostrar que consegue transformar esses ganhos em resultados. E se não depende de escala para o fazer, isso é música para os ouvidos de um tecido empresarial como o português, que sempre teve dificuldade em fundir-se para ganhar mercado, cá e internacionalmente. É hora de dizer: “IA, show me the money.”
